Atalhos de Campo


28.11.14

escova de factos





ESTES PRÉDIOS SÃO QUASE DE GRAÇA
Diz a tabuleta encarnada
À gente que passa

E é que às vezes passa uma gente engraçada:
Um estudante sem livros, e, ao lado,
Um operário desempregado.

Mário Cesariny/ burlescas, teóricas e sentimentais
*Rua da Bica Duarte Belo*

27.11.14

O talentoso Mr. Ripley


Voltar(vá-se lá saber porquê...), ao universo obscuro de Patricia Highsmith e a Tom Ripley, o falsificador de assinaturas, o imitador, psicopata e burlão, mas também ao seu extremo bom gosto, à sua sensibilidade efeminada e requintada, a Belle Ombre (a maravilhosa casa em Villeperce) e a Mme Annette, ao cravo, à ópera, à pintura, às flores que ele próprio cuida e corta, manchadas evidentemente por crime, corrupção, e elegante maldade, até darmos connosco a simpatizar com um assassino.

meteorologia


Perseguidores



Olhei para a minha grelha de seguidores, e vi que já são *oficialmente* sete. Ena tantos! -exclamei atordoada- mas, por favor, persigam, pensei.

Évora

A minha mãe foi a Évora, dizia o Raul Solnado, ou terá dito o meu pai...?

26.11.14

as folhas no chão

Vivias acima da copa das árvores, das praias, das casas dos aldeamentos turísticos e das buzinadelas nas filas de trânsito, a voar, e hoje, por razão nenhuma(sei que gostarias que eu dissesse isto), hoje tenho de repente uma boa razão para as nossas vidas, quando só tínhamos vinte e muito poucos anos: hoje a glicínia cansou-se, desistiu de sustentar o Verão e deixou cair todas as folhas aos meus pés, enquanto tu, que há tanto tempo lhe desobedeceste, me deixaste todos estes anos pendurada no parapeito da nossa inquietude, das nossas fugas pelo ar, das nossas aventuras de amigos(em carros anárquicos por entre atalhos fotográficos), e das surpresas vertiginosas, como a da tua aula de treino de aterragem quando andavas a tirar o brevet, que me deixou as pernas a tremer. A última vez que te vi foi no dia dos meus vinte e um anos, quando me apareceste com um livro que me pedia um sorriso por escrito. Ontem peguei nele, nesse livro que inexplicavelmente se partiu em dois, os sonetos da Florbela Espanca, e ali naquele poema que me apontavas, eu era a moribunda, para que tu, finalmente, vivesses.

Ao meu amigo Guido Ventura, que morreu num dia de Verão.

Tears: largo di molto




25.11.14

O que há depois?



Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...


A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono...


O que há depois? Depois?...O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?


Que importa? Que te importa, moribundo?
-Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!...

Florbela Espanca/Sonetos
A um moribundo

24.11.14

atalhos difíceis



Decisão: tomar o atalho pela montanha de Schalksburg. E que atalho! Neve até aos joelhos, nenhum trilho visível, cruzo um campo, depois a passagem estreita-se numa cumeada íngreme, agora já se reconhece o caminho. Pegadas de animais selvagens. As árvores e arbustos parecem perfeitamente irreais, flocos gordos de neve ficam presos mesmo nos ramos mais finos. A neblina levanta e, em tons de cinzento e preto, vejo muito lá em baixo uma povoação.

Werner Herzog/ caminhar no gelo

o peregrino

As histórias de um passado próximo,(e com isto quero dizer que ainda cabe na nossa vida)ganham uma espessura que lhes dá credibilidade, talvez também e sobretudo, por supormos que as histórias boas que se passaram ao mesmo tempo que nós, de alguma forma também nos aconteceram. Herzog saiu de Munique a vinte e três de Novembro de 1974, (há precisamente 40 anos), e três semanas depois estava em Paris, à cabeceira de Lotte,-uma grande amiga e colega sua, que estivera a morrer-, porque acreditava que essa sua travessia de solidão lhe salvaria a vida. Durante esse tempo, seguiu a pé por campos gelados, atravessou montes, rios, localidades, e dormiu ao relento, em casas abandonadas ou em rulotes. Ao longo da viagem foi escrevendo um diário, que só quatro anos depois seria publicado, escrevendo: só no cinema tomaria isto tudo por verdadeiro. Quando chegou ao pé de Lotte, levava consigo avalanches de silêncio, mas ela sorriu-lhe e compreendeu-o porque sabia que eu era um caminhante, e por isso mesmo um homem indefeso, e fez-lhe a vontade de viver quase mais uma década.

Nota: este texto foi baseado no diário de viagem de Werner Herzog, com o título *Caminhar no Gelo*/ Tinta da China   

23.11.14

Gutai

Quando Jiro Yoshiara fundou o movimento Gutai em 1954, em Osaka no oeste japonês, mal imaginava que hoje, na miopia do nevoeiro, partindo de um assobio esgotado na planície,(único som da manhã), um gato aparecia vindo de muito longe, atravessava a Ásia e a Europa por montes e vales, fazendo estremecer a paisagem: uma mancha minúscula, cavalgava agora a seara num embodiment, num quadro vivo de destreza, em que o negro do corpo molhado no orvalho, como as cerdas de um pincel, aparecia e desaparecia serpenteando por entre o verde da aveia, dois palmos de nascida.

21.11.14

Km to Miles

couve sem bruxelas

ouve, couve
rosa de folhas e não de pétalas
lagartas do medo roendo a noite
qualquer dia ainda precisas 
de manual de instruções
erro de código
rosa errada
a quem partem os braços
de madrugada
à procura de corações
rosa sem sorte
nem espinhos 
oferecida
ao corte 
que geme rente ao chão
rosa afogada
a chorar 
clorofila
na água em ebulição

20.11.14

Kind of blue

Olhaste-me fixamente num tom de azul que não deixava margem para dúvidas: havia nele uma mensagem cifrada, que nem mesmo a nossa longa cumplicidade conseguia descodificar na íntegra. Esse azul temível, que noutros tempos tivera consequências, reaparecera agora, invasivo e de mau prognóstico, pela manhã. Dizem que hoje há máquinas que descodificam o olhar, que todo esse azul para além das palavras não quer olhar para ninguém; que se enquista na indiferença e na apatia, e é sempre grave. Há dez anos, quando te encontrei, sei que me seduziste pelo teu bom gosto, pela rapidez do raciocínio, pela memória prodigiosa, pelo teu grafismo; e, se há homens gráficos, tu és um deles. A minha paixão foi também ela gráfica, platónica e assolapada. Vivi numa espécie de pecado pré-mortal, e paguei bem por isso: desencadeaste ciúmes (gráficos), fobias, invejas, misantropias, atrasos, noitadas, insónias, penúria, e hábitos cómicos, como ver o horóscopo de manhã,(que felizmente já perdi). Contigo aprendi a explorar em mim uma outra dimensão, a humildade perante uma nova medida de tempo e de espaço, mas também a parcimónia, o resumo, e a correcção. Aprendi que o tempo se passava de maneira diferente para os dois, e com os anos fui notando algum cansaço, alguma perda de brilho, algum desgaste. Agora dizem-me que estás nos cuidados intensivos, que tiveste uma espécie de AVC, mas garantem-me que vai tudo correr bem, que vale a pena esperar, que virás melhor do que nunca, para continuarmos esta tarefa, esta solidão partilhada de tantos anos, em prol do último esquecimento, e do esquecimento último.

12.11.14

Colecções Philae

eu, que ando sempre na Lua, adorei saber
que alguém coleccionava Cometas numerados

hoje limpas tu a cozinha



Rolo da massa

Instrumento de madeira, constituído por um cilindro com cinco cm de diâmetro e duas pegas nas extremidades, encontrado em casas antigas, e utilizado na posição horizontal para fazer massas(tenra, folhada, quebrada), em modo analógico, usando ambas as mãos; ou como arma de defesa(ou de ataque), na posição oblíqua, manejado com a mão direita, ou com a esquerda, quer se trate respectivamente de uma dextra, ou de uma esquerdina. Em ambos os casos, este utensílio proporciona um exercício muito completo para os braços e antebraços, uma vez que os braquiais, os bicípedes, os tricípedes, os extensores, os flexores e os abdutores, são tonificados. No primeiro caso, o jantar sai melhorado, e os pastéis de massa tenra podem acompanhar com arroz de grelos; usado como arma, melhora sempre o músculo do adeus.

11.11.14

um certo modo artístico de ser

(...)
A matemática pura, a poesia, a especulação filosófica e certos modos artísticos são desinteressados. Existem, magnificentemente, sem qualquer utilidade. Não alimentam nem preservam a sobrevivência bio-social, a não ser num sentido metafórico (sendo que a própria metáfora é um enigma crucial). Só uma retórica falaz poderá sustentar que estas operações puras concorrem para fins darwinianos ou pacificam o mundo. W.H.Auden gostava de lembrar que os poemas «não fazem nada acontecer». Como eu próprio faço questão de sublinhar, ao longo desta autobiografia.
George Steiner/ Errata: revisões de uma vida

os morangos do campo

  
                                                                                      

(...)
Eu que te vi e revi descer solene
como um raio sobre o meu destino
que te dei um lugar mais definitivo
em minha boca do que a folha de outono
teve na calçada
quando de vez vieres que será de mim?
E tenho a ousadia de morder-te
à superficie do dia. Tu bem sabes
que catedral de esperança te reservo
Talvez já amanhã nos não saudemos sob as árvores
e venhas sobre as nuvens
sobre o coração sobre a morte sobre mim
Ruy Belo/ Maran Atha
Aquele Grande Rio Eufrates

10.11.14

Altiva agonia

Altiva agonia
Serena em  cada manhã,
Na espessa parede do Outono.
É ave a tremer de frio,
Com asas cor de romã.

TBC

Metáfora

A censura é a mãe da metáfora.
Jorge Luís Borges

Quase, quase que apetece dizer, ainda bem;
pela censura, claro. 

9.11.14

Fora de serviço

(...)
Give me back the Berlin Wall
Give me Stalin and St.Paul
Give me Christ
Or give me Hiroshima
Destroy another fetus now
We don't like children anyhow
I've seen the future, baby:
it is murder

Leonard Cohen/ The Future

8.11.14

Paisagem com obstáculo não epistemológico

 

The Photographer



All that white hair
A gentleman's honor
And a long white beard
Burns up in fever

And this artificial moonlight
An artificial sky

Horses in the air
Feet on the ground
Never seen
This picture before

And the artificial moonlight
An artificial sky

Horses in the air
"Whose baby is this"
Never seen
This picture before.

Philip Glass/A Gentleman's Honor
The Photographer(dedicado a Eadweard Muybridge)

7.11.14

Kodachrome

Há dias em que tenho saudades da minha Nikon analógica, de colocar o filme e de o fazer deslizar com os dedos até prender, do som da máquina a rebobinar, da corrida para trocar de rolo, da focagem, da regulação da abertura, do obturador, da velocidade, da forma como as minhas mãos gostavam de a ter nas mãos, do peso da mala, da espera pelas provas de contacto, da surpresa, do ritual. Está guardada, imprestável nos dias que correm, imprestável para fotografar para o blogue, imprestável como outras iguais, nesta ânsia do imediato, da partilha, da aclamação, do elogio; nesta correria em que o bom substitui o óptimo, porque a urgência é implacável, as imagens correm aos milhões por todo o lado, não se contemplam, consomem-se. Por isso me recuso a comprar outra, fotografo com o telemóvel, porque tenho essa noção de precaridade da imagem, do desgaste a que está sujeita, da banalização. Mas não perdi a esperança de voltar a fotografar com ela, de arranjar uma câmara escura, e de, no meu silêncio, fotografar para ninguém, apenas pelo amor à imagem, como aquela fotógrafa americana que morreu na miséria, e deixou centenas de fotografias e de rolos por revelar por falta de dinheiro, encontrados numa caixa postal após a sua morte, com excelentes fotografias, que ela nunca viu.

Observação

XIV         
                          (Instalo-me num pedregulho perto da casa já
                                       com telhado. Aguaceiros com boas abertas -
                                       li ontem na previsão do tempo.)


Sento-me a ver as formigas 
na terra transparente
dos livros aprendidos.

E vejo-as mudas,
enigmas de beijos secretos,
linguagem corredora,
sabor para interromper
a disciplina
de encher os celeiros
de moscas, minhocas,
palhinhas,
pétalas de rosas bravas,
bichos de conta,
vento com dedos
na cólera da chuva,
danças sacras,
suicídios,
silêncios perdidos das palavras,
enterros enigmáticos
nos labirintos dos cemitérios
na terra agora opaca.

José Gomes Ferreira/ Pedregal(1960-1961)
Poesia VI

6.11.14

tântrico molto vivace

Perguntas de Outono

O Outono entra legalmente
ou é uma estação clandestina?

Ouves no meio do Outono
detonações amarelas?

É verdade que o Outono parece
esperar que algo aconteça?

Talvez o tremor duma folha
ou o trânsito do universo?

Porque se suicidam as folhas
quando se tornam amarelas?

(Porque não atribuir uma medalha
à primeira folha de ouro?)

Há um íman sob a terra,
íman irmão do Outono?

O que é que o Outono paga
com tanto dinheiro amarelo?

Porque é que o arvoredo se despiu
para esperar a neve?

No Outono, as andorinhas
irão ausentar-se da lua?

Os cabeleireiros do Outono
despentearam os crisântemos?

O amarelo dos bosques
é o mesmo do ano passado? 

Já reparaste que o Outono
é como uma vaca amarela?

Sabes que reflexões
rumina a terra no Outono?

E como a besta outonal
é logo um escuro esqueleto?

Quantos anos tem Novembro?

Pablo Neruda/ Livro das Perguntas
Nota: estas *Perguntas de Outono* foram
      seleccionadas por mim (entre muitas, de
      diversos teores), e colocadas por ordem
      diferente daquela em que aparecem no livro.

5.11.14

As grandes promessas

(...)
Não acredito em famílias «felizes». Mas vi certas situações de harmonia, de concórdia entre humanos, em que cada um vivia um pouco, a despeito dos outros, para si... e, apesar disso, para os outros, para a família, mesmo que se litigassem entre eles como lobos. Família...É cá uma palavra! Sim, talvez que a família seja um dos objectivos da vida.

Sándor Márai/ A mulher certa

Mary
Aquele vestido de casamento ia dando cabo de mim e da costureira!(...)
Que contente eu estava! E que vaidosa!(...)
Onde estará o meu vestido de casamento? Tinha-o embrulhado em papel de seda no meu baú. Costumava pensar que teria uma filha e, quando ela fosse casar...(...)
Era feito de macio e brilhante cetim, orlado de preciosas rendas antigas, com rufos no pescoço e nas mangas, e nas pregas que iam até às costas.(...) e havia rendas no véu, com as flores de laranjeira. Como eu gostava daquele vestido! Era tão lindo!(...) Eu costumava ir buscá-lo às vezes, quando me sentia só, mas acabava sempre por chorar, até que há muito tempo...

Eugene O'Neill/ Jornada para a Noite

Família

4.11.14

Variações para fim de tarde

Cicatriz

Seguiu-a com o olhar enquanto ela descia as escadas. E se a esperasse em vão, à noite, à saída do escritório? Ao pensar que poderia não voltar a vê-la, a angústia apoderou-se dele. Procurou, sem sucesso, lembrar-se em que livro estava escrito que todos os primeiros encontros eram como um ferimento.

Patrick Modiano/ O Horizonte

3.11.14

A mulher é uma colher

A mulher é haste e taça
Entre os dedos levitação
A mulher é o corpo e é a arte
A mulher é graça e até em Marte
A mulher é uma colher.

A mulher é ergonómica, astronómica, gastronómica
Ponto de pérola em açúcar
É estrada em ponto no prato
Mas do ar chega atrasada 
Em ponto cruz é cruzada
E mesmo quando é espada
A mulher é uma colher.

A mulher é estrela no céu e na boca
É sabor no céu divino 
A mulher é sina e é destino
Se é pequena é cafeína
Aos pulos no coração
Se é grande e é de sopa
Aquece mesmo sem roupa
A mulher é uma colher.

A mulher é da sobremesa o botão
Que desabotoa o olhar
A mulher é uma visão
Até a fruta chegar
A mulher é uma colher.

A mulher é relicário
É líquido amniótico é cordão
Virada ao contrário é barriga
É forte que protege e abriga
Um e outro coração
A mulher é uma colher.

A mulher é lenda é toada é cantiga
É flor é pé e ponto
Bordada na curva da vida
A mulher é uma rapariga
Com fita azul no cabelo
Mesmo antes de adormecer
A mulher é uma colher.

A mulher é Vitória é Liberdade
Em proa de embarcação
É de Willendorf é de Milo é de Vénus
A mulher é sudário
Gravado na concha da mão
A mulher é muito antiga
A mulher é uma colher.

A mulher é rasa de água e de sono
É o remédio o mito e a cura
A mulher enquanto dura
É rosa em qualquer estação
Só para outra rosa perdida
E mesmo quando deixou de ser
A mulher é uma colher.

Teresa Borges do Canto