Atalhos de Campo


30.1.16

Serenata

Uma bandeira chamada Korczak

-Aquele que diz que se sacrifica pelos outros ou por alguém,
mente. Um diz gostar de cartas, outro prefere mulheres, outro
não perde corridas de cavalos, mas eu, eu amo as crianças.
Não me sacrificaria totalmente, não por elas, mas sim por
mim mesmo. Sou eu que preciso disso. Por favor, não 
acreditem nessa história do sacrifício. É falsa e mentirosa. 
Korczak ( legenda do filme)



Quando o seu orfanato se mudou do endereço anterior à guerra, em Krochmalna, para o Gueto de Varsóvia, Korczak ordenou que a porta de entrada permanecesse trancada e as janelas do andar térreo fossem tapadas. Quando as deportações para as câmaras de gás estavam a tornar-se uma certeza, Korczak opôs-se, supostamente, à ideia de fechar o orfanato e de despachar as crianças para que procurassem individualmente a hipótese de escapar que poderiam (apenas poderiam) ter. Korczak pode ter concluído que não valeria a pena correr o risco: uma vez fora do abrigo, as crianças aprenderiam a temer, a humilhar-se e a odiar. Perderiam o mais precioso dos valores - a sua dignidade. Uma vez privadas deste valor, qual a vantagem de permanecerem vivas? O  valor, o mais precioso dos valores humanos, o atributo sine qua non da humanidade, é uma vida de dignidade, não a sobrevivência a qualquer custo.

Zygmunt Bauman/ Amor Líquido  

Nota: Em Agosto de 1942, Korczak foi morto no campo de extermínio de Treblinka juntamente com as crianças do orfanato, cerca de duzentas, o qual se recusara a abandonar para ele próprio se salvar. Tinha 64 anos. 

29.1.16

Super-Avozinha, o regresso



Olá Miss Smile, até que enfim  Miss Smile!  Misssss Smiiiiiiiiiile!

A lista

Sobreviver aos outros é o tema de A Lista de Schindler; sobreviver a qualquer custo e em qualquer condição, venha o que vier, fazendo o que for preciso fazer. A lotada sala de cinema irrompe em aplausos quando Schindler consegue tirar o seu mestre-de-obras de um comboio pronto a partir para Treblinka. Não importa que o comboio não tenha sido impedido de seguir e o resto dos passageiros dos vagões de gado vá terminar a sua jornada nas câmaras de gás. E os aplausos surgem novamente quando Schindler recusa a oferta de «outra judia» para substituir a «dele», «erradamente» destinada aos fornos crematórios, conseguindo «corrigir» «o «erro».

Zygmunt Bauman/ Amor Líquido

A escolha



Se na altura tive medo?
Sim, temi que não fosse a mim que ela escolhesse.

28.1.16

árvore com pardais


























Ainda estavam verdes as estrelas
   quando eles vinham
com seus cantos rorejados de lábios.
Os passarinhos se molhavam de
   vermelho na manhã
e subiam por detrás de casa para me
espiarem pelo vidro.
   Minha casa era caminho de um vento
comprido comprido que ia até o fim do mundo.
   O vento corria por dentro do mundo
corria lobinhando - ninguém
   não via ele
   com sua cara de alma.

Manoel de Barros

                                            a Miss Smile

pássaro cantor, o regresso

a Primavera
canta nos pássaros
a melodia do seu regresso

Obrigada, Xilre.

27.1.16

Greve de Zelo

Em solidariedade com movimentos iniciados, aquiaqui, aqui, aqui, e aqui, e, felizmente, aqui, este blogue começará hoje uma greve de zelo, que se prolongará até ao regresso do nosso mestre,"lá das internetes", D. Xilre, entoando canções, publicando poemas e fotografias, e reduzindo o ritmo, até à sua própria extinção. Pelo regresso dos idos(os), lutaremos até ao fim. Manter-nos-emos em vigília por turnos. Entraremos em greve de fome, se preciso for, não comendo, nunca mais, bifes de vaca.   

26.1.16

bifes

à mesa, em resposta à pergunta de quem conseguiria comer um bife
das nossas vacas, Horta e Flor, que escaparam ao matadouro, 
só houve uma negativa


















refugo


O senhor J. chegou cedo, com a carrinha de caixa aberta. Os animais já estavam separados numa cerca, à espera do seu novo destino. Catorze. Ovelhas velhas, com mamites, infertilidade, defeitos vários. Entre elas a que baptizei com o nome de Magoo, por ter os olhos quase imperceptíveis, e oblíquos. A Magoo era velha, magra, gulosa, má mãe, e antipática. Não deixava mamar a única cria que pariu nestes dois anos, e que acabou por ser adoptada por uma outra ovelha que perdeu o borrego à nascença. A cria sobreviveu, e é parecida fisicamente com a mãe. Lembro-me do dia intenso de chuva em que fomos buscar um lote de ovelhas vendidas por um senhor já idoso que deixou de poder cuidar delas, e onde vinha a Magoo. Algumas das ovelhas eram já tão idosas como o senhor, mas o lote no seu conjunto era bom negócio porque havia muitas borregas recém-nascidas. Com os animais de produção é assim, o rebanho é um conjunto de números. Gostava que a Magoo morresse aqui, de velha. E agora, que ela já se foi embora, espero que tenha sorte, que vá para uma pastagem com muitas guloseimas, onde passem despercebidos os seus defeitos. Quando nomeamos algo, acrescentamos complexidade aos números.

25.1.16

votar com o cabelo molhado

Faltavam apenas sete minutos para o fecho das urnas, quando saí de casa à pressa, para votar. Mal entrei na secção de voto, na escola primária da vila, senti-me observada da cabeça aos pés, porque estava com o cabelo molhado. Sabe de cor o seu número de eleitor? Não, não sabia. Foi então que disseram alto o meu nome completo depois de o procurarem na lista. Uns segundos depois passaram-me uma folha para as mãos e encaminhei-me para a cabine de voto, com todos os olhos pregados nas minhas costas. Depois de entregar o boletim, fui seguida até à porta. Ficaram a espreitar para ver se conheciam o carro. Voltei para casa para secar o cabelo e fui para Lisboa, onde jantei com o meu filho. A minha nora disse-me que eu estava com o cabelo bonito. Durante o jantar percebi que só uma pessoa não tinha votado, por motivos de força maior. Havia três gerações à mesa. Fomos acompanhando os resultados eleitorais pelo telemóvel. Mais uma vez venceu a abstenção, a apatia dos que mais se queixam, tudo exigem e nada fazem, à mesa do café.

Voar e andar a pé



















































































24.1.16

33 anos



Trinta e três anos, que maravilha. 

A cegonha

De há uns dias para cá, observo todas as tardes um casal de cegonhas a uns cinquenta metros da casa, a alimentar-se enfiando o longo bico por entre as ervas, na terra amolecida pela chuva. Hoje, porém, uma delas pousou no alto do tronco da palmeira que já morreu, mesmo em frente à janela do escritório, e pôs-se a glotear, suponho que a chamar o companheiro, muito ao jeito humano de querido, encontrei uma mansarda maravilhosa. Tenho a certeza de que, se aqui não vivesse ninguém, já as cegonhas tinham feito uma ocupação clandestina das chaminés e do arranha-céus em tronco nu. Mas o som de matraca do bico não surtiu efeito, talvez porque o telefone do noivo estivesse sem rede, o que aqui por vezes acontece, nem tão pouco a insistente e arrojada dança com véu, que quase a fez desequilibrar dos saltos muito altos. Distraí-me a observá-la, e quando finalmente me decidi a tirar-lhe uma fotografia, ela acabara de desistir de continuar a exibição, e, perante a minha decepção, voou. Passada a desconfiança inicial, quando perceberem ambas que o ambiente é pacífico, talvez tenha outra oportunidade tão boa como a de hoje, e aí acrescentarei uma bela cegonha ao texto. O certo é que esta proximidade me tem feito pensar muito no que me aconteceu faz hoje trinta e três anos, e me transformou na mais feliz e radiosa mulher do mundo. Nada, nunca, se assemelhará à alegria de ter um filho perfeito e saudável, de o amar e de o proteger. E a cegonha é o símbolo desse amor, dessa dedicação. Por isso ando encantada com o bom presságio da sua presença tão próxima. É que quando peguei pela primeira vez numas mãos, que apesar de tão pequeninas me seguraram levemente os dedos, fiquei para sempre cativada, subjugada pela vida.     

23.1.16

o trilho e o passeio






















Os animais movem-se criando trilhos estreitos que serpenteiam por 
entre a pastagem, não danificando a paisagem;

























O homem constrói belos e largos passeios, mas circula com frequência 
fora deles, pisando distraído, ou por conveniência.

22.1.16

Olha, apetece-me dançar



Nasci quando morreste.
Por isso trago a nostalgia
dos movimentos puros que tiveste.

David Mourão-Ferreira/ A Isadora Duncan

entre os pingos da chuva















































































































memória. curta # 14

Era uma senhora de idade. Tinha um cão rafeiro, ainda cachorro. Sempre achei uma prova de juventude, até de alguma insensatez, as pessoas de uma certa idade terem a coragem de voltar a criar um cão depois de terem perdido um cão velho, e de elas próprias se sentirem com tempo de vida insuficiente para tratarem de um cão até ao fim. Eram ambos muito inteligentes, a senhora e o seu pequeno e irrequieto amigo. A senhora era sisuda e morena, mas tinha os olhos muito azuis, de um azul cortante. Porém, quando falava do cão, o olhar adoçava-se e sorria com uns dentes muito brancos, ao contar que ele era muito querido, muito seu amigo, embora fizesse alguns disparates que as empregadas não gostavam de limpar. Parecia-me até que havia alguma cumplicidade entre eles, de modo que as asneiras do cachorro eram desde logo desculpadas, e penalizadas as empregadas, que não tinham boa vontade. Aparecia com frequência com o cabelo grisalho e liso parcialmente coberto por uma boina, e vestia sempre calças pretas com camisolas coloridas. Nunca me pareceu que tivesse grande tolerância para aquelas conversas de amigas. Era filha única, e tinha herdado uma série de casas que geria com alguma eficácia. No Verão mudava-se para uma casa com jardim que possuía em Cascais. A azáfama era mais que muita; a excitação também. Guiava o seu velho Ford bege, achatado e ferrugento, atulhado de malas e sacos, vagarosamente, de Lisboa até à porta da outra casa. Lá, dedicava-se à jardinagem (e o cão a destruir o jardim), e telefonava-me bastantes vezes com dúvidas sobre o cão. Olhe, ele agora está cheio daqueles, ajude-me, bichinhos, pretos, pequeninos, muito rápidos e que dão saltos, ajude-me, pulgas, sim pulgas, ajude-me. Simpatizávamos uma com a outra, eu admirava-lhe a genica e o sentido de humor, por isso a ouvia contar sempre as mesmas histórias sem me impacientar. Nessas conversas era hábito vacilar na escolha de certas palavras, dizia muitas vezes, ajude-me, e eu, pelo sentido da frase, lá lhe tentava encontrar a palavra certa. O inglês, dizia-me, o inglês, foi muito importante para eu subir na profissão. Consegui dominar muito bem o inglês, e fui promovida por isso. Depois confessou-me que após uma queda e um traumatismo craniano tinha perdido os substantivos, mas às vezes já era eu que dizia os substantivos, porque os substantivos também eram substantivos. E assim vivíamos, eu e ela, rodeadas por adjectivos, que empregava com imoderação. A mim parecia-me jolly good.

21.1.16

Pedro, já reparaste que se acendeu o primeiro verde?

























































































Ao meu filho.


Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
suponho ser a luz que o deus me segredou.

David Mourão-Ferreira/ Inscrição sobre as Ondas

19.1.16

A Fotografia

Surgiu-lhe do fundo de uma gaveta quando procurava um documento antigo, e deteve-se a observá-la, deixando-se invadir por uma onda de melancolia que lhe obscureceu o pensamento e o fez esquecer momentaneamente ao que ia. Nunca estaria preparado para lidar com aquela perda, mesmo passados que eram dezassete anos sobre o rosto que agora acariciava distraidamente, desenhando-o com os dedos. Como era bela aquela mulher. Tinha ficado assim para sempre, sentada com os olhos fixos na linha do horizonte, o cabelo húmido e salgado obediente a ladear-lhe o rosto, expectante como a noiva de um homem do mar que nunca voltou. Seguiu-lhe a pele bronzeada da curva graciosa dos braços, contornou-lhe a suavidade dos lábios cheios com o polpa do indicador direito que lhes foi avivando a cor de pêssego, pressionou-lhe as clavículas até lhe encontrar os ombros magros, segurou-lhe com ambas as mãos o pescoço longo, até lhe envolver o rosto com os dedos, e lhe aproximar a cabeça do peito, como tantas vezes fizera. Sentiu-lhe então o corpo num arrepio, o peito dela, agora maior que o habitual, ultrapassava abundantemente o recorte do soutien do biquíni cor de salmão que o cingia, os calções curtos de algodão com flores em tons pastel sublinhavam-lhe a cintura, rematada por um botão. Estava grávida, mas era ainda a elegância da atitude que sobressaía do tronco muito ligeiramente inclinado, do ar enigmático e sonhador na expressão séria do rosto. Entre o arco formado pelas coxas, agarrado pela coleira metálica com ambas as mãos de dedos esguios, um enorme cão azul olhava para a câmara com o ar inquisidor de um guardião. Podia agora, liberto do medo, lembrar-se do toque liso e aveludado daquela pele, inspirar-lhe longamente o cheiro, saborear-lhe uma vez mais a boca sensual com a tranquilidade do impossível, e sem a urgência dos encontros roubados a alguém, demasiado intensos para poderem resistir-lhes, guiá-la uma vez mais nos meandros do amor, como o seu velho mestre. Era a única fotografia que tinha dela. Pouco depois de ter sido tirada ela voltara de férias e procurara-o para dizer que tinha perdido a criança. Que alívio! pensara, que leviano e cobarde fora na altura. Não tinham voltado a encontrar-se, mas um dia vira-a à saída do cinema, talvez uns seis anos depois. Fora tudo muito rápido. Ele estava na fila para entrar e ela saía com uma criança pela mão. Conversavam animadamente, ela olhava para baixo e sorrira ao passar mesmo à sua frente, e não o vira, mas a criança fixara por segundos uns olhos muito azuis nos olhos dele. Ficou a segui-las com o olhar, iluminadas pela luz de catedral das enormes janelas do tecto que fizera toldar tudo em volta, até que as duas silhuetas de cabelos compridos também desapareceram, engolidas pelo corredor seguinte. Já em casa, lembrava-se bem, fechara-se no escritório com a caixa de música que compara com ela em Genève, numa das viagens da companhia, para fantasiar repetidamente com a esbelta bailarina, que numa tarde de amor furtivo, terminada em êxtase de prazer e de lágrimas, pegara nos seus genes e fugira, para livre aparecer anos depois a dançar-lhe no olhar azul e já cansado, com um troféu seu pela mão. E foi esse o último pensamento que teve, antes de voltar a guardar a fotografia.     

aguarela (sobre papel)

























Na curva

18.1.16

Lembras-te?

Aristóteles inventou o Facebook

A amizade é menos frequente entre pessoas azedas e entre os mais velhos, porque quanto pior for o feitio das pessoas, menor é o prazer que têm no convívio. Ora o bom feitio e o convívio social são marcas de amizade e motivos criadores de amizade. Por esse motivo, os jovens depressa se tornam amigos, os velhos, não.

Aristóteles/ Ética a Nicómaco

14.1.16

velhas amigas

Aterrámos na Paris de Dezembro de 1992 entre Boteros e castanheiros-da-índia, em marcha triunfal da Praça da Concórdia ao Rond Point. Lembras-te de certeza, tão bem como eu, que a Torre Eiffel se elevava do subterrâneo Trocadero até ao segundo andar, e que eu andava sempre com um caderninho irritante onde apontara o Requiem de Mozart na igreja de Madeleine, Maurice Béjart no Palácio Garnier, Dali numa galeria, a estreia de Damage de Louis Malle, e de Bodyguard, e que te convenci a ir a tudo, mesmo custando cada bilhete para a Ópera de Paris tanto quanto toda a despesa de um mês, e de como ao sentar-me diante do palco chorei de emoção. De que nos escapámos do estágio no hospital da faculdade para uma visita matinal e inofensiva à Pigalle, olhando boquiabertas para paredes inteiras revestidas com material erótico, e para as montras sado-masoquistas ao som de I can't help falling in love with you, e do que nos rimos. Que os retratos nas ruas de Montmartre já nos apareciam desfocados, e que foi a sopa de cebola e queijo gratinado que nos deu energia antes da subida à Basílica do Sacré Coeur; que eu andava sempre nas nuvens e tu é que sabias as linhas todas do metro, de onde emergíamos como toupeiras, cegas da vista do conjunto, como se Paris fosse afinal e apenas, uma luminosa observação em View-Master, de intermináveis e belos palácios, pontes e monumentos. Que aquela fotografia debaixo do guarda-chuva na Pirâmide do Louvre era premonitória de que andaríamos tanto naquele dia como em toda uma semana, e eu ainda mais do que tu, que pacientemente esperavas sentada numa das salas. Que manhãs cedo tinham sempre um caminho, Maisons-Alfort, e a École Vétérinaire. Que aí circulávamos maravilhadas por todos os departamentos, e internamento, e que assistíamos às sextas-feiras aos debates dos trabalhos sobre os casos clínicos, que eram no anfiteatro. Que perante a enorme panóplia de aparelhos, pensávamos que os nossos sentidos e intuição davam sempre as melhores pistas. Que almoçávamos invariavelmente cuscuz, e que a cozinha era tão má como a da nossa faculdade, que tinha fama de ser boa. Que todas as tardes tinham destino prévio e organizado no tal caderninho, e que entrávamos esfaimadas e a tremer de frio nalguma pâtisserie para beber chocolate quente e comer uma tartelette a brilhar. Que ao regressar a casa comprávamos para o jantar pão, fruta, iogurtes e chocolate na mercearia de bairro. Que o nosso frigorífico era o parapeito do lado de fora da janela do quarto. Que nos espantámos ao verificar que as lojas de animais da rive gauche vendiam gatos europeus, e que sempre conseguimos encontrar aquelas serigrafias com caricaturas de cães e gatos, que ambas nos entusiasmámos a comprar. Que o Museu Rodin é o mais charmoso do mundo. Que o meu chapéu, com uma cauda de furão cosida no laço, era garantia de sermos americanas. Que visitar os jardins de Versailles em trolley e a ouvir Bach foi uma bela despedida. Que acabámos por não andar de bateau-mouche. Que nunca mais viajei com uma mala tão pesada. Que as viagens têm definitivamente a capacidade de aproximar ou afastar as pessoas. Que as nossas diferenças ao invés de nos afastarem nos completaram. Que depois de regressarmos de Paris nos encontrámos muitas vezes, quase sempre para operarmos juntas, porque, tal como na cidade de Paris te orientavas muito bem, também o fazias nas veias e artérias dos animais, e eu, com o meu caderninho irritante, às vezes também te dizia, repara ali naquele pormenor, e aí, olhando as duas para o mesmo lado, salvámos juntas algumas vidas.

Para a Cristina           

13.1.16

as amigas




































































































































a décima emenda

este blogue reserva-se o direito de aperfeiçoar os textos publicados durante os dois anos seguintes à sua publicação, sem no entanto lhes alterar o sentido. convém portanto manter-se actualizado, relendo os arquivos.

12.1.16

memória. curta # 13

Acabara de acompanhar ao carro uma cadela que fizera cesariana, encarregando-me eu própria de levar os cachorros num cesto, agasalhados numa mantinha. Detive-me por momentos à porta, vendo-os partir, depois de me despedir e de dar os últimos conselhos aos donos. Concentrada que estava em assegurar que tudo iria correr bem, só então reparei numa figura masculina que se aproximara devagar olhando para a entrada e para o horário da clínica, para depois se afastar sem nada dizer. À segunda aproximação titubeante, que me fez esperar com deferência para algum esclarecimento, perguntou com ar de quem quer meter conversa, então é aqui que tratam os animais? Sim, respondi-lhe, precisa de alguma informação... ao que respondeu com outra pergunta, sorrindo de atrevimento, e nós, não somos animais? Às vezes são. 

tropismo























Com a altivez de uma rainha e a dignidade da nobreza, com a sabedoria de um mestre e a benevolência de um crente, com a ternura de uma fêmea e a antiguidade de uma pirâmide, com o instinto de um animal e a lealdade de um cão, com a seriedade de um guardião e a atenção de um caçador, com um olhar de gente e a postura de um filósofo, com a atitude de um poeta e o nome de um fruto, com o abandono de uma folha e a paciência de um idoso, com a alegria de uma criança e o equilíbrio de uma árvore, com o despojamento do Inverno e a benção da vida, a Ameixa, espera...
comida.

11.1.16

piscina de inverno













































      a água que me chama*
em mim deságua
      a chama que me mágua














































duas folhas na sandália*

o outono 
também quer andar














































ideolágrimas/ Paulo Leminski*