Atalhos de Campo


30.12.17

gourmet

só uma hóstia 
de cada vez

a 2018

A luz virá da esquerda, comme il faut. Os cães estarão a dormir em constelação, de frente para o lume, com a atenção em Sírius, o guardião do céu. Se o portão te parecer fechado, entra na mesma. Não te quero no passado. E olha-me de frente, prefiro: afinal se te meteste por este caminho suponho que vens para ficar. A cama está feita de lavado e há galo no forno. Chegar aqui não é fácil, aviso-te, por isso se tropeçares não desistas, continua a andar e procura a lua, que vai estar alta sobre o laranjal. Até amanhã.    

hóstia

Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
A ferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
inocência da terra.

Herberto Helder

29.12.17

hard rock

nunca me livrei de um certo
ar de rock

as músicas que eu ouvia # 6



É possível que já me tenha cruzado com o Ian Gillan.
Soube hoje que vive aqui (também), enquanto recomendava 
umas pastilhas para o enjoo. As pastilhas foram o último
grito, claro: [Quem me escutasse a ouvir isto em altos
berros achava, por certo, que estava perdida.] 

essas























Laranjas instantâneas, defronte - e as íris ficam amarelas.
A visão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.

Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens
as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
- Constelação ao vento avassalando a casa.

Herberto Helder / Última Ciência

27.12.17

A pequena igreja

É possível que a mão dela tivesse tocado na minha com um gesto carinhoso precisamente quando eu me voltara da figura exultante de Jesus, sentado no altar à direita (com dois anos, três no máximo), para fixar por longo tempo a imagem do corpo pregado na cruz - um corpo esguio e na verdade muito belo, cujos joelhos ligeiramente flectidos acentuavam o abdómen encovado e o tronco magro e rendido pelos braços abertos, com a cabeça curvada em total abandono -, morto, trinta anos depois. Foi aquele gesto, sem nenhuma ligação ao gesto formal de saudação sugerido mais adiante pelo padre, que me fez acordar para a vida: e deixei-me envolver pelos cânticos, pelos brilhos e pelas flores do altar-mor, e lembrei-me que o padre, embora já de uma certa idade, também ele estava a recomeçar ali, tal como eu, e que era aquela a sua primeira Missa do Galo na aldeia. Queria agradar, percebia-se (e espevitar-nos do sono), mas também libertar do cansaço e da apatia a capacidade para a redenção nos seus novos paroquianos. Cantava e rezava portanto com o entusiasmo daquele velho galo que glorificara a noite do nascimento de Jesus, e isso de certa maneira era contagiante. O outro padre, o anterior, era jovem, amado, e negro. Vi-o só uma vez, a descer o seu calvário à frente de um funeral, talvez do seu último funeral. Ia com ar inseguro, de animal acossado. Razões várias o afastaram dali, razões díspares, diria. Mas as pessoas gostavam dele, ao que parece. Sobretudo as mulheres, que sussurravam que era esbelto como um Cristo.      

24.12.17

Christmas oratorio



dançamos?

- não(¨¨¨)...

Posted by Agustina

Se eu tivesse que passar o Natal completamente só, aceitava que assim fosse, e nada mais. 
Só com todas as lembranças fidelíssimas e sem felicidade; porque, o que não nos traz 
exaltação e alegria é sempre profundo e mais real.
(...)

Agustina Bessa-Luís / Natal completamente só
Caderno de Significados

23.12.17

firmamentum



Para Paula

é acompanhado andar, por entre a gente*
Camões (electrónico)

22.12.17

diz-me o que (não) sabes acerca do amor*




































































e livrai-nos do natal

Quanto mais convivemos com os homens, mais os nossos pensamentos se ensombram; 
e quando, para os iluminarmos, regressamos à nossa solidão, encontramos nela 
a sombra que eles aí derramaram.

Cioran / Silogismos da Amargura
Letra Livre

não é para ti



(...)
Ah! sob as sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo de xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá por fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob as sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

Ricardo Reis / Odes

21.12.17

solstício

no meu dia mais pequeno e mais frio 
temerei sem medo
ou arrepio

Célines

Com o firme propósito de só ler grandes escritores durante o resto dos meus dias, comprei hoje Viagem ao Fim da Noite (e não só). Vinha para casa a espiar o livro ao meu lado, adivinhando-lhe leituras, quando o nome do escritor me fez recordar uma mensagem de Natal com uma música cantada por Céline (mas Dion) que recebi há dias no WhatsApp. E eis que me detive no seguinte pensamento: fosse essa pessoa apenas, e só, blogger (da minha proximidade virtual), e enviaria por certo outra música. Um dos fascínios dos blogues é precisamente afastar com naturalidade seres dessemelhantes. Quanto a mim, aborreceu-me deveras ter inspirado presencialmente tal Jingle Bells.    

vencimento

o meu pai dizia vencimento
quando se referia a salário

estava certo

também dizia klaxon

20.12.17

ortodontia

sorriso
inexplicável

doencia

a doencia existe
tal como a salvia

a inconsolável solidão

Passada a euforia que o amadurecimento técnico sempre traz, foi crescendo a urgência de meditar sobre o que fazia, no meu caso, tratar cirurgicamente afecções do sistema nervoso. Infelizmente, a fé da juventude fugiu não sei para onde e ficou-me a inconsolável solidão e o controlo vigilante da angústia metafísica, inevitável para quem assiste à morte nas suas várias modalidades - libertadora, injusta, trágica, anunciada, absurda... 

João Lobo Antunes / Um Modo de Ser
Sobre a Alma

[Obrigada, Maria João]

19.12.17

dias

A criança entrega-me o cãozinho morto. Recebo-o com ambas as mãos como a um recém-nascido. Quando coloco o estetoscópio sobre a área que corresponde ao coração, para confirmar o que já sei, sinto o corpo ainda quente, mas ouço nele o silêncio da terra antes da vida, um silêncio cavo de túnel vazio, o mais temível de verbalizar de todos os silêncios. O coração não bate, já não bate, digo. A criança volta a pegar no cãozinho cujo pequeno corpo parece ainda moldar-se aos seus braços. A mãe chora e a menina contém um soluço e diz que vai ser forte. O cãozinho, que brincava momentos antes, conservava um fácies de espantosa felicidade. Acho que era por isso que ninguém conseguia acreditar que morrera. Queria só ter a certeza, disse a mãe. E saíram tal como tinham entrado, para descerem a rua com um cãozinho ao colo, ainda a brincar de vivo. Suspeito que certas mortes precisam de pelo menos dois dias para se consumarem.    

tal & qual
























17.12.17

bem-aventurada



E Maria disse:
«A minha alma engrandece o Senhor
e alegrou-se o meu espírito em Deus, meu salvador,
porque mirou a humildade da sua escrava.
Eis que a partir de agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada,
porque em mim fez coisas grandes o Poderoso.
E santo é o nome d'Ele,
e a misericórdia d'Ele <é concedida> de geração em geração
àqueles que o temem.
E demonstrou força no seu braço
e dispersou os orgulhosos no pensamento dos seus corações.
Derrubou os dinastas dos seus tronos
e elevou os humildes;
os esfomeados encheu de coisas boas
e os ricos mandou embora sem nada.
Acolheu a Israel, seu escravo,
recordado de misericórdia,
tal como falou aos nossos pais,
a Abraão e à semente dele para sempre.»

Evangelho Segundo Lucas (Visita de Maria a Isabel)

Bíblia - Volume I - /Tradução Frederico Lourenço 

13.12.17

historinha de Natal com azul murano

Crava em mim os olhos transparentes. O sorriso é aberto e cuidado quando me pede um papel para fazer o croqui. Dois brincos exuberantes baloiçam nas orelhas como espanta-espíritos, exibindo budas em fantasia. Quando inclina a cabeça sobre o tampo da secretária onde apoia o papel para desenhar o trajecto (explicando-se o melhor possível no seu inglês entoado em alemão), reparo na perfeição do enrolamento do turbante, que é do mesmo azul que lhe oscila no olhar. Depois estende-me uma seringa quase cheia de um líquido translúcido, e pede-me, apontando a graduação com uma tremura, para ir ao domicílio dar um mililitro da substância que desconheço, em dias alternados, num total de nove vezes. Um desses dias é o dia de Natal. Ao aperceber-me disso digo-o em voz alta, acrescentando mais uma ruga à minha concentração, na esperança que entenda, mas não desiste, dizendo que é muito importante para a cadela que se siga o tratamento à risca, como frisou o seu colega. Aceito, embora suspeitando que não seria nada de grave atrasar um dia, porque sei que se algo correr mal esse atraso vai ser responsabilizado. A seguir premeia-me, sugerindo que no futuro posso vir a assistir os seus animais. Está tudo combinado e prepara-se para sair. Ao passar a porta levanta o saco que leva na mão, onde está escrito Peggy Guggenheim. Estive este ano na bienal de Veneza e visitei a espantosa colecção de arte que Peggy deixou, diz. Sabia que no jardim do museu, ao lado das cinzas dela, estão também as cinzas dos seus catorze Lhasa apso, com os nomes, as datas de nascimento e morte de cada um? Um monumento lindo, que infelizmente não consegui fotografar. 

Ah!, ia-me esquecendo, a cadela é agressiva, leve qualquer coisa para lhe atar o focinho.


as dos outros Natais:
- com Menino Jesus
- com amarelo limão
- com azul Klein
- com Aloe Vera

10.12.17

trajectória

A camioneta das mudanças não se atrasou muito, mas o homem não contava com tantos volumes para carregar e acabámos por sair mais tarde do que estava previsto. Afinal era o conteúdo de uma casa inteira, para não dizer de uma vida inteira, que era preciso levar rumo a sul. É como jogar o Tetris, dizia, à medida que ia encaixando e empilhando meticulosamente o que eu lhe ia trazendo por último, quando parecia já não caber nem uma formiga e ainda repetia esperançada, ah! é só mais isto... que ia ficando ali esquecido. Ofereci-lhes o almoço à saída da vila e parti com eles (segurando entre as pernas uma enorme taça de pé alto em vidro que ficara de propósito para o fim), sentada entre o condutor e o ajudante que era brasileiro e tinha tatuado no peito em itálico Abençoado por Deus

Já tinha anoitecido quando chegámos a um armazém comunitário depois de uma viagem longa, mas segura. O meu irmão estava à minha espera com o genro e o meu sobrinho. Foi com o auxílio precioso das lanternas que levavam e da força anímica de mais estes três homens que conseguimos descarregar e arrumar tudo sem luz eléctrica. Suspirei de alívio quando os portões do armazém finalmente se fecharam com estrondo sobre as minhas coisas - com os móveis em círculo como muralhas de um castelo a defender os objectos mais delicados colocados ao centro -, sobretudo pela exaustão que sentia. E de seguida deixei-me aterrar de pára-quedas, faz hoje um ano, no terreno amistoso de uma festa de aniversário de família.

2.12.17

Passagem para a noite (36)

Quando cheguei a casa as sombras do pôr-do-sol já se alongavam sobre a terra, ainda iluminada pelo verde rasteiro do Outono. Porém, a luz incendiava-se mais acima, nas flores, nos troncos das árvores, no canto do anoitecer. Tinha trabalhado durante grande parte do feriado. Uma cirurgia iniciara o dia e depois era preciso ir eutanasiar um cão. Cheguei à propriedade por caminhos de cabras lavados pela chuva e enxutos pelo vento. Levaram-me ao sítio onde o cão, - um velho e outrora bonito cão que se deitara ao sol sobre um fardo de palha - olhava com ar interrogativo. Se o dono, - holandês magro e enrugado pela vida - não me pareceu convicto, muito menos eu. Faz vinte anos este Dezembro, no fim do mês, disse-me, de olhar perdido no passado. Pois bem, lembro-me de ter pensado, deixemo-lo fazê-los. Havia um picadeiro e um estábulo, de onde saiu um cavalo esplêndido em direcção ao poente. Herdei-o com o cão, disse o holandês (que tinha um rabo-de-cavalo grisalho), tem vinte e três anos. 

O cão não quer morrer, ainda, expliquei-lhe, enquanto nos afastávamos ao encontro do meu carro. Continua a seguir-me para todo o lado, venha ver o sítio onde dorme de noite, quis mostrar o dono com certo orgulho pelo seu zelo. Entrámos numa casa de madeira que parecia o que restava do antigo escritório do picadeiro, onde estava feita a cama do cão sem faltar uma almofada. Enquanto conversávamos começámos a vê-lo a aproximar-se através da janela, a equilibrar a capa contra o frio que descaíra e o acompanhava tão enviesada quanto ele, até entrar, inesperadamente apesar de trôpego por uma série de artroses, a direito pela porta aberta, para se aninhar na cama feita de lavado. 

Pode precisar de três bengalas mas pergunte-lhe se ele quer morrer hoje, afirmei, despedindo-me do aliviado holandês, ao fazer uma festa na cabeça sempre carente do cão.

1.12.17

boa noite

Saí de casa de lenço encarnado ao pescoço, deixando 
o meu filho ainda pequeno com os meus pais. O meu pai
tentou várias vezes convencer-me a não ir ao concerto no 
Estádio do Portimonense, a dois passos de sua casa. Fui sozinha
e livre, pela noite. Passaram muitos anos, tantos que não me 
esqueço da fúria intacta daquela música. E de quando a dada 
altura olhei para trás, e me ficou congelada a memória na 
imagem de todos os lenços como o meu, e de todas as bocas 
abertas, a cantar.  

morrer

todas as bandeiras são como um arco reflexo

verdilhão

junto à tralha
e ao brasão

pose

acredito sobretudo no que não dizes

vermelhão

o passarinho do peito cor de fogo
que canta vermes
afoga-me

29.11.17

priapo

Parece-me que o Charlot está com um problema... - começou por dizer Monsieur L. ao colocar o cão sobre a marquesa. E, um pouco embaraçado apontou, - ici au pénis. Observei atentamente o órgão em questão, nada encontrando de anormal. Inquirido Monsieur L. sobre o que observara de estranho, percebi que o que ele supunha ser uma coisa horrível, corroborada pela mulher que entretanto chegara, era o resultado final de um acto fisiológico. - Il a grandi, disse-lhesconcluindo: - et il a besoin d'une fiancée! 

É bastante frequente que em relação a algumas situações os homens desumanizem os animais.

27.11.17

agaphantus azuis e lírios brancos

Entre a minha casa e a casa da minha irmã há uma estrada com oitenta quilómetros. Percorri-a ao som da 5ª e da 7ª sinfonias de Beethoven, a deixar-me conduzir por Carlos Kleiber. Levei-lhe uma tarte de maçã para a sobremesa e morangos com hortelã. Ela tinha feito carne assada para o almoço e a casa cheirava bem. Enquanto almoçávamos fiquei a admirar-lhe a alma em cada pormenor nas paredes: um armário recuperado cheio de livros e recordações, o auto-retrato a óleo de uma amiga que já morreu, um espelho trocado por uma máscara de cerâmica, uma salamandra resgatada ao lixo, as portas dos armários desenhadas por ela que encaixam como yin e yang. Foi-me contando as histórias de cada quadro e objecto, quase tudo feito por amigos artistas. Azeitonas, alcaparras, queijo de cabra, pão de centeio, a maciez da carne envolta nas batatas assadas em azeite e alecrim, passada para o corpo num golo de vinho branco. E foram do abraço estreito que demos à despedida, as cores ancestrais que plantei hoje no jardim: o azul vertido na terra vermelha veio dos agapanthus que me trouxe da pequena quinta que era dos nossos avós, e o branco dos lírios, dos desenhos do seu atelier.          

25.11.17

ultrapassar o passado

Ouço Wagner aqui, pela primeira vez. Acendo a lareira pela primeira vez desde que as noites esfriaram, e começo a fazer uma tarte de maçã. Mistura-se o cheiro da tarte a cozinhar no forno com a voz de Voigt e o crepitar do lume. Esta combinação já conquistou outra casa, mas nunca me tinha vencido a mim. 

24.11.17

ler

depois de te maravilhares com uma árvore
tens que lhe descobrir as raízes

a décima sétima emenda

este blogue é um solilóquio com atenuantes

espanto

há pessoas que não nos espantam com a vida,
de tão bem feitas que foram para viver:



espantam-nos sim, e muito, quando morrem.

22.11.17

torre

A Torre do Carbureto, que surge no meio da Buna e cujo cume raramente se vê no meio do nevoeiro, fomos nós que a construímos. Os seus tijolos foram chamados Ziegel, briques, tegula, cegli, kamenny, bricks, téglak, e foram cimentados pelo ódio; o ódio e a discórdia, como na Torre de Babel, e é assim que a chamamos: Babelturm, Bobelturm; e odiamos nela o sonho demencial de grandeza dos nossos patrões, o seu desprezo por Deus e pelos homens, por nós homens.

E ainda hoje, como no conto antigo, nós todos sentimos, e os próprios Alemães sentem, que uma maldição, não transcendente e divina, mas imanente e histórica, paira sobre essa construção provocatória, alicerçada na confusão das linguagens e erigida a desafiar o céu como uma blasfémia de pedra.

Primo Levi / Se isto é um homem

limpo



(...)
Se quisesse eu próprio falar de um lugar de consolação
recente na minha vida teria de referir o campo de
concentração de Westerbork, na Holanda, onde estive
em peregrinação o verão passado. Foi nesse epicentro
da dor que, ao lado de milhares de outros mártires do 
século XX, esteve prisioneira Etty Hillesum. Recordo-me
de passar um par de horas, deitado sobre a erva, a 
escutar o vento. Apenas isso. Mas senti uma comunhão
profunda com o grito e o perdão que se pode ler quer 
nos escritos de Etty, quer no destino silencioso de
tantas vidas. E, sem que as pudesse deter, as lágrimas
lavaram-me o rosto várias vezes. As vezes necessárias
para que ficasse limpo.

José Tolentino Mendonça / Que coisa são as nuvens 

dangerous liaisons























ou a flor antes da queda da folha



20.11.17

Lager*

Afirma Lagerfeld, ou Lager field, em inglês:

[«Não se pode - mesmo ao fim de décadas - matar 
milhões de judeus para se poder trazer milhões 
dos seus piores inimigos para os substituir.
Karl Lagerfeld, designer de moda alemão

Criticando a política da chanceler Angela Merkel em relação
aos refugiados»]
Retirado da Revista E/18/Novembro/2017

Curiosamente Lager era o nome dado pelos alemães
durante o nazismo aos campos de concentração, e 
ao trabalho escravo nos campos de extermínio

14.11.17

iva

e hoje é o dia
do (verdadeiro) perfurador de papel

partir



ouvimos isto juntos, 
lembras-te?   

um amor em cada porto

Eis um dos lapsus calami citados no livro (para mim dos mais cómicos, talvez por lhe encontrar uma fina ironia, embora se perceba que não é o preferido do escritor): A tripulação do navio engolido pelas ondas era formada por vinte e cinco homens, que deixaram centenas de viúvas condenadas à miséria. / Dramas Marítimos, Gaston Leroux.

13.11.17

lapsus calami

Fico a pensar no que leio eram passados 174,5 g do quilo bem pesado, e volto atrás para reler. Persiste no entanto a dúvida (mesquinha, é certo, dada a importância que isto tem no gigantismo da obra): Então se R. fica sem poder falar, o que é sublinhado, como é que acorda a gritar? E 226,2 g mais à frente é muito divertido, porque se enumeram vários lapsus calami, esses sim, de peso.  

12.11.17

falta

do amor
da protecção
do amor da protecção
da protecção do amor

8.11.17

as primas das obras

Dir-me-á o senhor que a literatura não consiste unicamente em obras-primas, mas sim que está recheada de obras, assim chamadas, menores. Eu também acreditava nisso. A literatura é uma vasta floresta e as obras-primas são os lagos, as árvores imensas ou estranhíssimas, as eloquentes flores preciosas ou as escondidas grutas, mas uma floresta também é composta por árvores vulgares, por ervas, por charcos, por plantas parasitas, por fungos e por florezinhas silvestres.

(quando a mão esquerda sustenta 1,266 kg e a direita 184 gramas)

6.11.17

obsidiana

86,62 g depois dos crimes há referência a um matemático romeno
que trabalhava com números misteriosos, a descrição de uma cena 
absolutamente hilariante, um soldado que beija a loucura numa 
rapariga inteligente; e uma jura: 
pesa tudo 21,3 g

5.11.17

sob a cabeça

- Se a minha cabeça herdar outro corpo, será ético 
que eu use as suas gónadas como uso o seu fígado?

- Se eu estiver à espera de um corpo para a minha
cabeça, será ético preocupar-me com a cor da pele?

- Se me derem um corpo vinte anos mais novo, será 
ético congratular-me pelo meu rejuvenescimento?

4.11.17

livros

As Cidades Invisíveis, Morte Em Veneza, Na Praia de Chesil, Se Isto é um Homem, O Amante, Um Copo de Cólera, As Velas Ardem Até ao Fim, A Rosa, O Estrangeiro, Crónica de Uma Morte Anunciada, O Livro das Igrejas Abandonadas, O Fazedor, são obras-primas, livros que se lêem de um trago como se fossem shots, que embriagam num gesto, num lapso inquietante de tempo, são como tiros directos à cabeça e ao coração, mas a destrinça de uma história longa e complexa, as tardes e as noites repetidas na companhia de anos de trabalho compactado entre as mãos, a postura inclinada persistente, rendida, alheada, ausente, pasmada, a cumplicidade e o peso, a reflexão e o vínculo, precisam de mais tempo.  

3.11.17

arte equestre

He threw his arms around the horse's neck
And kissed him everywhere
I love my horse
A crowd gathered

(...)




...
 I'll give you my latest
Philantropic sonata

Jim Morrison / Ode to Friedrich Nietzsche

surround

entre mim e o cavalo a passo 
uma ténue parede de alvenaria

trocava bem o grande espelho
por uma janela sobre o caminho

goteira


contramão

o caminho que faço
não interessa a ninguém
(sei-o pelo número de pessoas
com que me cruzo)
suponho que o meu destino
também.
mas há alguns pontos altos
em que se vê o mar ao longe
e algumas curvas surpreendentes
e muitas reentrâncias na estrada
para prevenir acidentes.
a chegada é recta 
e longa a subida
com um só sentido.
excepção feita aos mortos
depois do velório,
cuja descida
em contramão
é de sinal obrigatório.

[mas podia ser purgatório]

2.11.17

*grosso modo*

entre as duas palavras imbróglio encontradas distam 225,78 g; 
a parte atribuída aos crimes pesa 451,56 g, mas aparentemente 
o seu peso é muito superior ao do livro todo.

nota

troco te
por uma série
de miúdas

27.10.17

sobremesa

Vai dizendo o que há para sobremesa. Quando chega a vez 
da baba de cam... corto-lhe a palavra. Não precisa de 
dizer mais, já escolhi: se visse um camelo com baba, 
tratava-o. 

nascer de noite



morrer de dia

25.10.17

o velejador sem vento

Reparei no tronco largo de enfrentar o vento, na coluna direita, no cabelo mais embranquecido desde a última consulta, e também mais comprido, nas unhas por cortar. Os filhos no estrangeiro e o cão muito obeso como única companhia. Nem come muito, refere o velejador aposentado, e eu digo-lhe que são os extras que engordam, o que se  oferece para além da dose diária estipulada para o peso. E começo a dar exemplos: restos do prato, pão, restos de pizza... Ah!, por acaso agora tenho comido umas pizzas deliciosas e dou-lhe uns bocados, confesso... Essas coisas, se quiser que ele emagreça vai ter de evitar, representam um gelado de trezentas calorias no fim da refeição. Lembrei-me do que custava perder trezentas calorias no ginásio, do que custa perdê-las presentemente, mesmo que seja a trabalhar no jardim, só que o cão come e deita-se aos pés do dono, agora que ele deixou de velejar. Sabe, diz-me à saída, vim para aqui porque queria estar sozinho. Estava farto da confusão de Lisboa, com os meus filhos fora deixei de ter referências, mas já lá vão dois anos, e sinto muitas vezes solidão.   

Dei-lhe razão, em silêncio. Os verdadeiros solitários não procuram a solidão, ela está sempre com eles; são os outros, os que a procuram, que a encontram.

21.10.17

o poder da personagem

Shakespeare saberia, certamente, transformar Paula em Miss Smile;
mas só Miss Smile saberá como regressar a Paula.

20.10.17

o unguento e a cura



eu era o teu unguento
e tu a minha cura

mas nunca acertámos no dia da semana

saltos altos

apetece-me saltar páginas
como salto conversas




como saltei ao eixo

os mais lidos

É admissível que o escritor cansado escreva à tantas um texto chato, o que origina um leitor desmotivado. Mas o leitor compreensivo continua a ler o livro estoicamente, voltando atrás várias vezes, usando até de superior atenção, ao admitir que a culpa pode ser sua. É portanto plausível que os capítulos mais aborrecidos (e mais desinteressantes da história da literatura), sejam os mais lidos.  

15.10.17

encadernar

sou uma flor seca
guarda-me, no teu e-book
sou um bilhete de interrail
viaja-me, no teu e-book
sou uma fotografia
esconde-me, no teu e-book
sou areia da praia
encontra-me, no teu e-book

agora sou uma pena,
mas já fui um livro.

máquina de escrever

aproximo as mãos do teclado
como se soubesse tocar

do amor perfeito



14.10.17

guardar

não me aguardes
eu sou
de ontem

durante a tarde

com a idade, os homens vão ficando fartos das mulheres
e as mulheres dos homens, mas já é tarde

próximo

o homem do futuro estará advertido contra o amor
esse estado próximo da loucura

blogl au vin

Ontem, foi ontem, claro, que vi à venda um vinho em bom, chamado Blog. 
Blog não é nome de vinho, Sexy, também não, .Com, idem... mas há nesta 
escolha um sinal que achei interessante: parece-me uma aposta no futuro 
do vinho, pelo crédito aos blogues.