Atalhos de Campo


19.9.17

moi non plus

e estarei interessante
quando tu me achares morta

e estarei morta
quando tu me achares interessante

18.9.17

maior idade

quando o teu amor
me compensa

clé

São muitos os vídeos que provam que há gatos cleptomaníacos. Alguns felídeos até conseguem especializar-se em roupa interior (mas da felina). No entanto o meu problema, e bem sei porque escrevi meu - *assim* - não é com um gato, mas com uma cadela menor que gosta de gatos, e que parece ter adoptado um dos seus comportamentos: tenho aqui(que nem sei o que lhes hei-de fazer), brinquedos de criança, havaianas, toalhas, pantufas, ténis, bolas, bolas! - diria a Susana - o horror avoluma-se diariamente, quando a vejo chegar a casa com mais uma coisa daquelas... e bem podia ser a Diane Keaton a dizê-lo, com um dos seus muito bem conseguidos gestos, lá d'isso. 

17.9.17

sem dono

Conservo na memória a imagem desta tarde do cão morto como se chegasse a dormir, nenhum esgar de dor, nenhum espasmo, os olhos circundados por carraças como se fossem piercings, o corpo aconchegado ao alívio da morte. A velha coleira de cabedal que ainda segurava a vergonha do abandono, mantivera-se como único afago a abraçar-lhe a errância, até ao esgotamento à beira da estrada.

15.9.17

vint' age



a vida é sempre impontual

conversa caiada

Fiz marcha-atrás e dirigi-me a ele em passo apressado. Durante toda a nossa conversa mal levantou os olhos do muro. Era uma espécie, quase extinta, de homem-alfarroba-na-apanha: escuro, seco, concentrado. Usava um rolo pequeno, e com ele branqueava o muro da Escola Primária. Varejei, que a mando da Junta de Freguesia. E não faz trabalhos fora do seu horário, é que precisava, ali para o consultório - apontei-, de uma pintura, como vê... pois vejo, - sem levantar os olhos-de-rolo-de-tinta -, até já disse ao senhorio que é só receber as rendas, e beber cerveja. 

machismo

confesso o meu problema com as vírgulas
e a minha admiração por certas maiúsculas

14.9.17

o grilo

Há duas noites atrás apanhei um grilo no meu quarto, mesmo antes de me deitar. Era um belo exemplar, grande e forte, vestido a rigor de negro noctívago, e brilhante. Peguei-lhe com uma t-shirt, abri a porta da açoteia que dá para a noite onde os grilos se misturam com as estrelas, e deixei-o lá, pensando que voltasse a saltar para o jardim. Despertar de madrugada com o cantar altíssimo de um grilo, faz sumir num ápice qualquer romantismo que possa estar associado às noites de Verão no campo. Estremunhada resolvi voltar-me para o outro lado, mas o grilo não me dava tréguas em lado nenhum. Pensei que talvez não tivesse conseguido devolvê-lo à liberdade, e que ele afinal cantava ali mesmo, aos meus pés. Levantei-me e aproximei-me do sítio de onde vinha o som. Não havia dúvidas de que o grilo estava fora do quarto, mas cantava com tal intensidade que parecia estar lá dentro. Dei dois toques com os nós dos dedos na porta de vidro (duplo, acrescente-se) e ele calou-se, mas por pouco tempo. Recomeçou, e eu voltei a fazer-me notada, e ele voltou a calar-se. Deitei-me de novo, pareceu-me ouvir cantar mais longe e presumo que adormeci. Mas quando às sete da manhã me levantei e abri a porta da açoteia, o grilo foi sugado para dentro do quarto e caiu-me, literalmente, aos pés. Tinha escolhido exactamente aquele recanto para pernoitar. Peguei-lhe outra vez, mas desta feita para descer com ele para o jardim. Coloquei-o no canteiro das zínias, que tem bastante alimento e esconderijos. Há dois dias que o oiço cantar muito próximo da casa, mas suficientemente longe do meu ouvido. Tenho a certeza de que é ele: cada vez acredito mais que deve haver grilos que gostam de pessoas, como há pessoas que gostam de grilos. 

9.9.17

feijoada com todos os poetas

A casa está mergulhada no vento. Acendi velas em vários sítios. Arde ao meu lado uma delas, que resiste há dez anos, sem nenhuma razão especial. Faço contas e reparo que por ser muito grande já conseguiu perfumar as três casas anteriores. Na cozinha, onde adormeceram as cadelas por exaustão, cada uma no seu cobertor colorido, borbulha a fogo lento o esquiço de uma feijoada, que vou aperfeiçoando a cada içar de tampa. Cheira bem, e há paz, e silêncio. Esta semana Tolentino consegue reunir Pessoa, Cecília Meireles, Adélia Prado e ele próprio, num desencontro brilhante. 

prócida:



foste o meu herói azul
a minha solidão sem sul

8.9.17

bd

os teus comentários
parecem documentários

fica bem

pode ser mais simpático
do que ben fica

post

mal passado.

água retrasada

Segue à minha frente uma camioneta, ou eu sigo uma camioneta à minha frente. Idosa, (velha). A camioneta é absolutamente isso, para onde caminho. Vai carregada com um contentor cilíndrico, isso, como ela quase eu, (as)sentado na sua anca rectangular e desengonçada. Reparo com o imenso vagar o n d u l a n t e, que o reservatório está recauchutado com uma espécie de botox, ácido hialurónico ou coisa que o velha (nunca eu) para contentores em alumínio a atirar para o decrépito. Há uma mancha no bidão que me parece um pequeno fantasma, mais escura que o cinzento geral em que me concentro, e que insiste em flirtar comigo, intrigando-me em toda a curva decadente.
Água! - consigo ler finalmente -, e o fantasma sorri-me. Pois é, lembro-me de imediato, aliviada: aqui vende-se água às toneladas e quintais, porque se compra água, porque em muitas casas ainda não há água canalizada.
Olá fantasma, - vamos indo.

5.9.17

a guerra no prato



Respeito muito os vegetarianos. Atualmente, a minha
alimentação e a da minha família é 60% vegetariana.


(...)matar um javali e ir lá com a faca sangrá-lo, 
tirar-lhe o sangue todo, fazer-lhe festinhas enquanto 
o sangue lhe cai pelo pescoço, (...) dar um tiro num 
pombo ou num faisão.
(...) ter um pombo e abri-lo todo, tirar-lhe o peito,
o coração, o fígado e os pulmões, tirar-lhe o sangue
com um paninho, tomar conta dele...

4.9.17

a força da suavidade



Pelo obituário do jornal que apanhei do chão da cozinha,
(ali colocado para os cães fazerem chichi durante a noite), 
soube que Anne morreu há pouco mais de um mês, ao tentar 
salvar duas crianças em risco de afogamento. Chamou-me a atenção 
facto de ser uma mulher ainda jovem e bonita. Ao ler a sua 
curta biografia, sentada ali mesmo, no chão, admirei-a 
imediatamente: alguém que faz a apologia do risco e que 
morre porque arrisca. Viver sem arriscar, não é viver, 
dito por esta filósofa que eu não conhecia, parece-me uma 
boa advertência mesmo que o risco possa ser de vida. As 
crianças sobreviveram e o jornal estava intacto incitando
à leitura, num dia em que era indiscutivelmente importante
que o fizesse.   

1.9.17

claudicações

O cachorro que claudica de um dos posteriores, segue uma senhora que fala ao telefone e que de vez em quando pára. Ele também pára, ansioso por lhe chamar a atenção, mas ela parece não perceber continuando a conversa, e gesticulando com a mão livre. Então ele desiste, adianta-se-lhe e desaparece por entre os carros estacionados, atravessa a estrada e volta a atravessar, de atenção erguida e olhar apurado, como se um periscópio se tivesse destacado do seu pequeno corpo. A senhora ali permanece, indiferente, entregue à conversa, e depois também ela desaparece no interior de uma loja. O cão pequeno fica sozinho e continua a sua busca cada vez mais aflitiva até que eu lhe apareço à frente, e o chamo. Aproxima-se a medo e eu tenho medo que ele, assustado, fuja para o meio da estrada. Finalmente consigo pegar-lhe e levo-o ao colo. É uma cadela com olhos cor de esmeralda, certamente roubados ao mar. Pesa menos de quatro quilos e tem cinco meses. Dedico-me a tratá-la o resto da manhã. Agora dorme numa cama ao lado da outra cachorra. No espaço de um mês é o segundo atropelado que recolho.    

31.8.17

flebotomia

é capaz de haver uma ligação póstuma 
entre o aumento de flébotomos
e o número de corações desabitados

silêncio

em noites de meio luar
reina o mais perfeito silêncio

tu

alguém que me encanta
é alguém que eu desencanto

30.8.17

cantiga

A certa altura a voz ecoa pelos corredores e entra por onde lhe apetece, mas todos sabem a quem se dirige. Ela encolhe os ombros e cora ligeiramente quando ele se põe com aquela de amar pelos dois. Um dia também ela amou por dois, e durante demasiado tempo. Por isso sabe que não resulta. Mas ele é persistente, e, volta e meia, canta-lhe a mesma canção. Então ela aproveita para a ouvir com o sorriso indulgente de quem se perdoa.      

29.8.17

a visita eleitoral

Pela porta aberta entram o presidente e os acólitos: um bom fato distingue o presidente, que cumprimenta e se inteira do espaço, ao relance de um olhar. Os assessores distribuem-se em sorrisos empenhados no programa, iguais aos da fotografia de propaganda. Deve ser uma estopada, não fosse o deslumbre do poder. Todos se fingem muito interessados quando a senhora, que espera sentada com o cão ao colo, comenta que vai conseguir pagar as cirurgias das suas duas cadelas com o dinheiro da alfarroba que ela própria apanhou. Suponho que qualquer padre se encantaria por estes e outros nichos de mercado assim contados, durante a visita pascal.   

28.8.17

melão

Posto isto, a mulher sugeriu ao marido que abrisse a camisa rasgada pelas unhas do gato.
Apareceu um abdómen proeminente, que ela epitetou carinhosamente de melancia. 
- Dra, já agora, importa-se de fazer o curativo?  

dançar à chuva



Um dia, com uma orquestra muito jovem, começámos
a ensaiar *La Javanaise* e os músicos pararam de 
tocar. Pensei que havia algum problema e perguntei 
porque é que não tocavam. Explicaram-me que tinham
ficado muito emocionados. Muitos deles não tinham
mais de vinte anos, provavelmente só conheciam a 
minha biografia da Wikipédia e as músicas do YouTube.
(...)

27.8.17

dialética

Fiquei, sem querer, com os teus princípios elementares
de filosofia. Há muitos anos, quando ainda não sabíamos,
estava escrito o que ambos certamente lemos na página
187: Os nossos próprios sentimentos se transformam, coisa 
de que mal nos apercebemos. Vemos o que era apenas uma 
simpatia transformar-se em amor, depois degenerar, algumas
vezes em ódio. Não foi o que aconteceu: ambos lemos o mesmo
livro, mas sublinhámos coisas diferentes. Nessa altura a
nenhum de nós pareceu relevante o destino de uma simpatia.  

24.8.17

a mulher, o cajado e o cão

Quase todos os crepúsculos passo por uma mulher de rosto oblongo, cabelo escuro, curto e encaracolado, pele tisnada. Seria talvez injusta se dissesse que usa sempre o mesmo vestido de flores escurecidas tal como usa o rosto sério, mas a mim, que sou míope, parece-me sempre tudo igual: o cajado bem seguro na mão direita, um cão negro, com duas pintas a avisar os olhos, à trela pela mão esquerda, o mesmo esforço na subida, a mesma persuasão como uma promessa, antes de anoitecer. Suponho até conseguir distinguir-lhe duas rugas simétricas de cada lado da boca, firmes como duas sentinelas, reprimindo-lhe qualquer sorriso. Saúdo-a com a mão direita fora do volante na descida aliviada, ao que ela retribui com um seco trejeito de supremacia.

23.8.17

valeria

Esperava em pé na esplanada vazia do café fechado, agarrada ao telemóvel. Vinha para uma entrevista de emprego. Percebi imediatamente que era ela. Não existia mais ninguém: calções pretos muito curtos, de bainhas desfiadas, top branco, sandálias, um enorme rabo-de-cavalo negro. Lamentei o facto de ser o dia de folga, mas ela pareceu-me bastante à-vontade, e sentámo-nos mesmo ali. Vencendo o impacto negativo do outfit, comecei por lhe perguntar que idade tinha. Trinta, disse-me, mas achei-a pouco convicta. Estou cá há seis anos, e eu comecei a fazer contas de cabeça, 24... Então, e tem o curso de veterinária... que sim, feito na Rússia, seis anos - mais contas - depois os estágios, mandaram-me para um matadouro, e tal. A Valéria trabalha na praça a vender peixe. Entro às seis e meia da manhã e saio às três da tarde, agora às quatro porque é Verão. E nunca pensou em exercer a sua profissão? Sim, mas querem experiência, eu não tenho. Pode começar por aprender, sendo auxiliar de consultório, e, depois, adquirindo prática, chegar a dar consultas. Nunca pensei nisso, é uma boa ideia. 

Agora os olhos de Valéria eram dois peixes de rio a rabear nas órbitas e toda ela me parecia escorregadia, plena de ácidos gordos Ómega-3, a derreterem, subitamente, chiando sobre um assador. Suponho que eu devia assemelhar-me a uma rede a subir em esforço o rio, ou a uma cana de pesca de qualidade duvidosa a aproximar-se de forma ameaçadora. Por isso não se interessou muito, nem lutou. Passado pouco tempo levantou-se, despediu-me estendendo umas unhas de gel azul turquesa, para o caso de eu não ter reparado, e partiu num Fiat como um sargo assustado, a favor da corrente.         

22.8.17

aterrador, meu caro Watson

IBM Watson, o supercomputador, traçou hoje o meu perfil em segundos, 
baseado no envio de um texto deste blogue, o que não passou de uma 
brincadeira do meu filho. Mas o certo é que falhou por pouco:

*You are skeptical, somewhat inconsiderate and can be perceived as compulsive.
You are independent: you have a strong desire to have time to yourself. You are philosophical: 
you are open to and intrigued by new ideas and love to explore them. And you are reserved: 
you are a private person and don't let many people in.
Your choices are driven by a desire for organization.
You are relatively unconcerned with both achieving success and independence.
You make decisions with little regard for how they show off your talents. 
And you welcome when others direct your activities for you.*

Eis o link:

21.8.17

brexit

Durante a tarde sou convidada para visitar o restaurante que abriu ao lado do consultório. Pergunto pelo empregado que costumo ver na esplanada com uma meia de cada cor e padrão, ténis e calções coloridos, três argolas no lóbulo da orelha esquerda, muito alto e com um inglês perfeito. É inglês? - interrogo, quando ele aparece. Britânico, corrige em português. E depois para provar - como dizia - que também era cidadão do mundo, levantou a t-shirt e exibiu um letreiro em arial XXL, tatuado a bold ao fundo das costas: MADE IN CHINA.

19.8.17

rascunho

Melrax # final scene

Em poucas semanas Melrax estava pronta. No entanto o meu temor por ela fez-me procurar-lhe uma antecâmara de liberdade, uma espécie de hall de saída. Talvez seja melhor eliminar certos factos, porque estou indecisa sobre a última cena: um pássaro indefeso é salvo, queremos todos que o mundo seja melhor, a nossa atitude tornou, sem dúvida, melhor o mundo. Portanto: FIM. 

Ou não. Consegui por intermédio do meu amigo que Melrax passasse da gaiola para um espaço muito maior, onde poderia preparar melhor as asas para voar em liberdade. Pedi-lho por uma semana. O espaço, uma jaula ao ar livre e só para ela, tinha o tamanho de um quarto com paredes de rede. Transportei-a dentro da gaiola, que cobri com um pano, para que não se assustasse. Já no interior da outra abri devagar a portinhola, e esperei. Primeiro ficou imóvel, parecendo resignada ao cativeiro, até que subitamente voou certeira como um projéctil, desaparecendo dentro da pequena abertura circular de uma caixa ninho que estava pendurada na única parede de betão. Acto contínuo saiu de lá um exame de vespas, como numa cena de desenhos animados. Tapei a cara com as mãos e quis desaparecer dali para fora. Era azar a mais. Mas, mal tinha começado a virar costas vejo-a de volta, a sair ilesa como um ricochete e a pendurar-se na rede, exibindo a vitória.  

Melrax foi libertada uma semana depois, como combinado, não sem antes lhe ter sido atribuído o homicídio de outro melro mais pequeno, salvo como ela, e que vivia provisoriamente na jaula ao lado. Quanto a nós, mudámos de casa mais uma vez e fomos felizes, até que certo dia eu fiquei, e tu também voaste. 
      

18.8.17

canção de voar



take this broken wings and learn to fly

Melrax # 5

- Então o melrax, ainda é vivo? Foi assim que lhe chegou o nome, dois dias depois de eu ter entrado sorrateiramente em casa, directo à cozinha com um pássaro escondido no fundo de um saco de papel pardo, para tratar de tudo antes de fazer a surpresa ao meu filho.

Nessa altura vivíamos felizes numa espécie de redoma, tal como o pássaro cuja gaiola não significava ainda prisão, mas protecção. Eu também construíra em nossa defesa uma casa envidraçada sobre os jardins das traseiras de Lisboa, que comunicavam uns com os outros de madrugada através do voo e do canto intenso dos pássaros. Pela janela da cozinha, sempre aberta, entrara e instalara-se um ramo florido de casuarina que salpicava de amarelo a bancada, onde fora colocada a gaiola artesal suficientemente grande para conseguir albergar primeiros voos. Várias vezes suspeitei que a mélroa-mãe vinha pousar num plátano próximo para ficar a observar a cria, visto estarmos em linha recta relativamente perto da tília onde fizera o ninho. Conta-se que quando os vêem enclausurados lhes trazem bagas tóxicas para os envenenarem. Por ter ouvido isso eu nunca ficava muito tranquila quando via melros nas proximidades, mesmo não tendo qualquer certeza sobre a veracidade do facto.

Fazíamos turnos para o podermos alimentar ao longo do dia, consoante os nossos horários: primeiro eu, depois tu, depois eu, depois tu, depois eu. Aceitaste bem a obrigação, mas era eu que limpava a gaiola, como fora estipulado. Divertias-te a dar-lhe de comer, a observar-lhe as novas penas finamente matizadas que a cobriam de castanho, e que começavam a indicar tratar-se de uma fêmea. Entretinhas-te a fazê-la abrir o bico, aproximando um dedo esticado através das grades, para testares se tinha fome. Uma vez demos-lhe esparguete, porque ela o confundiu com uma minhoca e se atirou a ele com voracidade; e acabámos o jantar à gargalhada. 

Sim, Melrax estava viva, crescida, a tornar-se uma bela ave. Atrevo-me a dizer que tu também.

(continua)

17.8.17

melrax # 4

tão feiinho, como é que o vou apresentar ao meu filho

(ainda) Melrax # 3

Claro que o melro é um sobrevivente, pensava eu, ao vê-lo engolir comida para gato sem a menor relutância. Afinal não é ele, como diz Kundera, que há séculos vem desistindo de viver no campo para conquistar as principais cidades da Europa? Não o recrimino, se o campo é, tantas vezes ainda hoje, uma saraivada de chumbos. E Melrax, o olisipógrafo, também conquistou Lisboa.

(continua)

(continuo) Melrax # 2

A história podia ficar assim, mas eu gosto de coscuvilhar nela, por isso vou dizer que ao ultrapassar a porta da clínica, com um passarinho aconchegado na mão, senti a frescura extraordinária de uma árvore frondosa, e fiquei com uma certeza: ia salvá-lo. Fui imediatamente rodeada pelas auxiliares, olhem o que trago aqui, e telefonei a um amigo para perguntar o que podia dar-lhe como alimento, pois sabia que era insectívoro. - Para já, comida de gato - foi a resposta -, depois procura uma mistura para insectívoros que há à venda nas lojas de animais, e faz uma papa com água morna. Agradeci e desliguei, radiante. O problema estava resolvido para aquele momento: foi só abrir uma lata para gatinhos e acreditar que ele abriria o bico. Foi o que fez, mal aproximei a seringa com a pasta, demonstrando enorme vontade de viver. 

(continua)  

16.8.17

Melrax

Enquanto percorria a pé o jardim da avenida para o trabalho de todos os dias, percebi que, ainda longe de mim, um homem se afadigava para colocar qualquer coisa em cima do tronco alto de uma tília. A coisa caía, teimosa, e ele com muita paciência voltava a pô-la repetidamente no mesmo galho. Após uma última tentativa, já à vista do número do seu autocarro, subitamente correu para a paragem, largando a coisa, que voltou a cair. Fiquei a ver o autocarro partir a toda a velocidade, com um certo alívio confesso por poder resgatar o que suspeitara ser um passarinho. Terá ele olhado para trás? Ter-me-á visto a aproximar da coisa, que ele sabia ser um melro (e que eu ainda não), e terá suspirado de desalento por ma entregar assim, com uns minutos de atraso? O certo é que me esqueci rapidamente do benemérito para olhar para o topo da árvore, onde a progenitora se esforçava por chamar a atenção em esvoaçares e piares, aflita junto ao ninho, e só então realizei que, o que o meu antecessor tentara, era de todo impossível de consertar. Peguei no passarinho quase sem penas e dirigi-me para a clínica onde trabalhava, para lhe dar a primeira consulta. Há alguns anos salvei um melro, numa tarde bonita de Primavera. 

(continua)

14.8.17

Posted by Cioran

Houve um tempo em que, de cada vez que sofria uma afronta, 
para afastar de mim qualquer veleidade de vingança, me 
imaginava muito tranquilo no meu túmulo. E acalmava-me 
imediatamente. Não desprezemos demasiado o nosso 
cadáver: ele pode ajudar-nos em certas ocasiões.

eutanasiar uma galinha

São mulheres grandes, mãe e filha, a mãe magra a filha corpulenta. Dizem bom-dia em português delicado, sorrindo e falando baixo, mas explicam-se em inglês, tomando a filha a iniciativa, com o acordo da mãe. A pergunta é se podemos eutanasiar uma galinha. Ela ainda come e bebe água, mas já não tem qualidade de vida, é muito velha e tem um tumor enorme, e faz o desenho do papo com a mão, para eu perceber onde é. Eu respondo-lhe que não sou especialista em aves, que ocasionalmente trato pássaros, que talvez seja melhor procurar um veterinário de exóticos para o efeito. Ela continua, justificando-se, que gosta muito daquela galinha, que não quer vê-la sofrer mais, que ela costumava subir-lhe para o colo para que lhe fizesse festas, que vieram ali por ser mais perto, que talvez fosse possível ali. Eu digo-lhe que não é impossível, que percebo que alguém se afeiçoe a uma galinha, é uma ave como outra qualquer, porque não, e lembro-me de O Livro das Igrejas Abandonadas, em que há uma galinha que vai esperar a dona e a acompanha à igreja enquanto ela reza, e parece-me que estou a vê-la agora: castanha, comum, de crista murcha e sem conseguir andar, pele e osso, moribunda. Eu sei que aqui ninguém faz isso, prossegue a filha, demonstrando ter consciência do ridículo do pedido, enquanto eu a vejo já a atravessar a porta, na data marcada, com a galinha de estimação debaixo do braço, eu a recebê-la contrafeita, mas sem mostrar, porque tirar a vida é uma coisa tramada e tão triste. Aqui, continua ela, o meu vizinho já me disse que lhes torcem o pescoço, que se eu precisar lhe faz isso, e ela morre logo.

13.8.17

um certo tipo

há um certo tipo de amor sem urgências, premonições, sobressaltos
aquele tipo (de amor) que não te deixa em alerta permanente
com os cinco sentidos sempre ligados
e um medo a piscar

mas não é o amor maternal

bicos de pés

ajoelhar.

pés

os homens rezam sem asas

10.8.17

devolução

Dentro da pequena caixa de estanho com a forma ovóide de um coração liso, colocada sobre o móvel do escritório, encontras o outro coração. É negro como te lembras, o artífice foi um sem-abrigo, ladrão de palácios. Encomendaste-o no basalto daquele teatro em demolição e depois mandaste-o encastoar em ouro branco, para que o pudesse pendurar no meu fio. Nunca o usei, mas guardei até hoje aquela ínfima poção de negro vulcânico, polida pelo sebo de umas mãos infinitamente sujas. Está intacto, ainda é o teu.   

9.8.17

tributo

advertência

Limpei-lhes o pó ontem, são dois pisa-papéis em vidro, bem bonitos, 
mas agora inúteis. Um é de vidro negro, o outro transparente. Sequestram, 
cada um, o seu coração vermelho. Este é o teu, disse-me apontando para o 
transparente, ao oferecer-me ambos; e este é como o meu, porque tem um 
fundo negro. Porém, o meu tinha sobre ele gravados três traços negros; 
o outro, três traços brancos. E foi isso mesmo que aconteceu. 

8.8.17

biodiversidade

A meio do jantar, a criança aponta para o tecto com insistência, demonstando ter a noção de estar ali a acontecer algo diferente e digno de ser partilhado. Balbucia também qualquer coisa. Olhamos todos, quase ao mesmo tempo, seguindo o seu pequeno e adorável indicador: a osga, que estivera sumida por uns dias, tinha voltado, e estava em grande actividade a caçar insectos. A criança não demonstra medo e ninguém revela qualquer desconforto com a presença do pequeno sáurio, antes pelo contrário.      

zebra


5.8.17

a preto e branco

(...)
Como aquela fotógrafa americana que morreu na miséria
e deixou centenas de fotografias, e de rolos por revelar 
por falta de dinheiro, encontrados numa caixa postal após 
a sua morte, com excelentes fotografias que ela nunca viu.

Atalhos,7/11/14


Tinha-lhe perdido o nome. Sei que, provavelmente, Vivian Maier 
preferiria assim, manter-se anónima. Mas hoje reencontrei-o e 
reencontrei-a. Fotografava desapiedadamente, como uma cientista 
que estivesse a estudar o comportamento humano. Talvez por isso
tivesse mantido a sua obra em apertado segredo, enquanto viveu.


home movie


(...)
Apaixona-me, por isso, a história de Vivian Maier(1926-2009). O seu primeiro trabalho é, em Nova Iorque, ao balcão de uma loja de doces. Transfere-se depois para Chicago, e passa a ser ama na casa de uma família de North Side. Nunca se casou. Aprendeu inglês indo ao cinema e ao teatro. Andava sozinha. No dia de folga pegava na sua Rolleiflex de médio formato e ia fotografar. Calcula-se que tenha feito perto de cem mil fotografias, num preto e branco rigoroso, que não mostrou nunca a ninguém. Fotografou a rua: os moradores dos bairros, as crianças brincando, os bêbados, as senhoras coquetes, os homens das mudanças, as marchas, as manifestações, os pequenos enredos de esquina, os chanfrados, o alarde das montras ou a confidência sempre diferente que um olhar, ao mesmo tempo reserva para si e escancara. No mês anual de folga, acontecia fazer uma viagem, mantendo a mesma preocupação de registar fotograficamente a rua. Quando morreu, os seus anónimos pertences foram vendidos em leilão, sem que se fizesse ideia de que se estava a entregar, por um escasso punhado de dólares, a preciosa obra de uma das grandes criadoras do século XX.

José Tolentino Mendonça/O Verbo Fotografar
Revista E, 5/Agosto/2017  



declaração de amizade

E foi ali, à sombra da canícula, que jurámos amizade. Chegámos, felizmente, à conclusão, ultrapassando as habituais situações de envolvimentos e arrependimentos, de que ambos tínhamos características para sermos bons amigos e maus amantes. Depois despediu-se e eu continuei a ler o jornal. Lembrei-me da dedução do juiz, aquando do meu divórcio, felicitando os ex-cônjuges pela idoneidade demonstrada no acordo de separação. Mas claro que não lho disse. 

2.8.17

Agosto

Vou atrasar-te o mais possível
fazer toda a fraude que puder com as minhas horas
gaguejar os teus minutos
fechar os olhos aos novos segundos
soletrar dias pendentes 
mergulhar devagar no sol das tuas noites quase frias.
Vou desfocar o registo da tua lua toda
e perder tempo, muito tempo 
a vê-la afastar-se por entre os ramos da figueira alta,
apanhar-lhe os últimos figos 
e ficar a comê-los no luar quente e maduro.
E quando o vento já não fizer estremecer nenhuma folha insegura
deixarei presas à chuva
todas as rosas brancas que cultivei para ti, 
emersas no silêncio sem leds do céu inteiro.
E quando a lua minguar e as flores empalidecerem
e as Monarcas tiverem migrado para o México
à procura de outras zínias mais coloridas e mais novas,
eu já te terei atrasado tanto
que um pequeno cristal em tua vez
ficará como o único Verão,
que valeu em mim
a tua pena.

1.8.17

Mr. Nigel

Para todos os efeitos Mr. Nigel mora na minha casa, que é onde chega, subitamente, toda a sua correspondência. Eu, cidadã escrupulosa, pego nas cartas e entrego-as no posto dos correios, mas começo a ficar intrigada com este homem invisível que mudou para o meu endereço. Ainda ontem o carteiro, recém-regressado de férias e por sinal mais gordo, me tocou à campainha, suponho que com curiosidade por entregar, em mão, uma carta a Mr. Nigel. Não o critico, evidentemente. Como por infortúnio Mr. Nigel não estava no momento, perguntei-lhe se era algum registo, mas não, era só zelo. Mr. Nigel vai-se revelando um facto, um homem afirmativo. Ora bem, fantasio eu, e se Mr. Nigel fosse o homem da minha vida que se fizesse assim anunciar, conquistando primeiro a caixa do correio, e depois quem sabe, um dia, eu viesse a receber, finalmente, uma carta dele, deveras encantadora, explicando as nobres razões deste enorme incómodo? E atrevo-me mesmo a dizer, ao devolver várias cartas de um conhecido banco: pode ser que ainda por cima seja rico.

tacto

Voava desorientada quando pousou sobre a terra, abrindo completamente as asas e fechando-as muito devagar até as unir ao máximo, no que parecia querer ganhar fôlego para iniciar nova volta, larga e atabalhoada, sobre o jardim. Fui a correr buscar a máquina fotográfica e tentei tirar-lhe uma fotografia em voo, sem grande sucesso, mas entretanto ela veio aterrar aos meus pés. Aproximei-me devagar e estendi-lhe um dedo sob o corpo. Subiu confiante, como se estivesse à espera de me dar oportunidade para ter aquele gesto. Senti-lhe as patinhas muito leves a agarrar as minhas impressões digitais e elevei-a no ar, onde ela pertencia.     

toma
























29.7.17

na idade da pena

arremessa uma pedra e ela voará

agora experimenta arremessar uma pena

na idade do bronze

Os meus poetas podem levar a civilizações etruscas e em alguns casos a contusões.
                            
Os meus posts podem levar a conclusões patuscas e em alguns casos a confusões.

na idade do ferro

Oiço o ruído de um automóvel, portas a bater e vozes de seguida. Continuo a enrolar a mangueira, tentando descortinar se o som vem de dentro da propriedade. Quando tenho a certeza que vem, dirijo-me à entrada para ver quem é. Encontro uma família de ciganos: a mãe de criança ao colo, os mais velhos, pendurados no baloiço da alfarrobeira sorvem gelados e um deles já trepa para a casa da árvore, o pai ainda dentro do Ford Cortina azul ferrugem estacionado no caminho, como recém-chegados a um parque de diversões. Pergunto o que desejam. Só viemos varejar a alfarrobeira aqui do terreno em frente, diz o homem ao sair do carro. E esta, também podemos? Digo que sim, do lado de fora, que não quero o jipe sujo, nem embalagens atiradas para o chão. Respondem em coro que sim. Fico a vê-los a estender um enorme plástico verde e a usarem as canas com destreza. As crianças também, terminado o gelado. Entretanto uma galinha canta demoradamente, para anunciar que acabou de pôr um ovo, e um cavalo relincha, numa quinta próxima. Nada mudou assim tanto desde tempos imemoriais: os jogadores é que mudam, mas o jogo, esse é sempre o mesmo.

ladrões de figos



28.7.17

the barber, since 1899*

cabeleireiro de homens voltou hoje ao consultório, com uma pergunta pertinente sobre canitos. Admirei-lhe o chapéu e a pose, mas não perdi oportunidade de lhe fazer as perguntas que tinha idealizado no caderno que não escrevo. E foi mais ou menos coincidente ele abrir o portfólio de cabeleireiro encartado in USA, para que o admirasse, e a minha pergunta ansiosa: - Não foi barbeiro em Buenos Aires? Lembra-se se cortou o cabelo a Jorge Luis Borges? Empertigado (com razão), - porque me lembrava de tudo menos de que ele não era barbeiro - respondeu-me à la lettre: nem a ele nem ao Al Capone.

* Jorge Luis Borges e Al Capone nasceram no mesmo ano 
(nota do investigador deste blogue, Manuel Hilário)     

antes da fuga

Feito

eu sou mais discreta :) faço acima:



































(ou the moon and sixpence)

27.7.17

nota para uma conversa de café daqui a vinte e cinco anos

Quando eu ainda não tinha um ano, a minha avó recomeçou a vida num sítio que não conhecia. Vivia sozinha com duas cadelas e um gato. Era veterinária numa pequena aldeia. Ah, e tinha um blogue! E parece que um dia, para tirar uma fotografia a um triciclo, ou melhor, a uma bicicleta que estava num terraço de uma vizinha, precisou de usar um escadote para passar de uma açoteia para outra e depois de esconder-se, porque a vizinha apareceu. Então ela teve que esperar um bom bocado para conseguir tirar a fotografia clandestina, quase apanhando uma insolação. Tinha ficado fascinada com o ambiente daquele amontoado de coisas velhas, onde estavam brinquedos que já ninguém queria, entre eles uma bicicleta que teria sido a alegria de uma criança, na altura já homem adulto. Ela vivia obcecada com este tipo de coisas, com os ciclos de vida que se repetem, que se fecham e recomeçam de novo.     

confusões

Os meus posts podem levar a conclusões patuscas e em alguns casos a confusões. Sempre que falo sobre isso com a minha mãe acabo a explicar-lhe tudo, as mais das vezes, tim-tim por tim-tim. Ora um post, se for ligeiramente dúbio, se conduzir alguém a pensar, a investigar, a relacionar, cumpriu a sua missão. Lembro-me que os blogues que mais me fascinaram no passado (e que me levaram a fazer um), eram precisamente assim. Aprendi muito com eles e foi por eles que me meti por atalhos nunca antes imaginados. Conheci mundos. Estou muito grata por tudo aquilo que não me foi dito, mas sugerido, e por todas as dúvidas que continuei a ter.  

equipamento

a ronda do dia




































































uni verso

eu, a brincar sozinha no grande mundo desde pequena

25.7.17

8%

É o tamanho da lua, hoje: para mim chega. Está linda no céu, não apaga nada, antes existe ali, como espada, uma foice quieta, que não quer cortar. E não sabendo qual a percentagem que me resta, também eu brilho como foi-se incerta, num caminho que é lunar.

desfocado

se focava o livro, desfocava o homem
se focava o homem, desfocava o livro

por fim preferi ler

cão a dormir


24.7.17

desafinado

Ele não toca bem e desafina quando canta.
Seria horrível ouvi-lo, se a maior parte das vezes 
o silêncio, as janelas fechadas, e a escuridão,
não fossem ainda piores.

sponging on e sponging off

Passo parte do Domingo a pintar o meu quarto. À cabeceira da cama uso uma esponja natural para deixar marcado o azul báltico. Contorno a janela e a prateleira em pedra. Continuo na parede contígua, seguindo uma voz que vem de dentro. Termina, como maré irregular, sobre branco. Ouço Async em repeat. Não se volta duas vezes ao mesmo amar. Adormeço numa ilha.

pequeno-almoço em áfrica

Levo o pequeno-almoço para o terraço que dá para o jardim. 
A cadelita anda por ali, vai recuperando mas ainda coxeia da mão esquerda. 
De manhã cedo recebe-me com saltos e latidos, quando entro na cozinha. 
Enquanto bebo o café afasta-se para explorar o espaço em volta. Procuro-a com o 
olhar. De súbito vejo uma ponta de cauda branca a aparecer por entre as ervas baixas, 
como se fosse a de um mabeco.  

22.7.17

the goats man

A nossa representação foi perfeita. Eu tentei não deixar transparecer ansiedade, ele foi directo ao assunto, venho buscar um cachorro que uns ingleses deixaram aqui, quanto devo. Suponho que ensaiou bem a fala, a atitude, a postura. Eu improvisei o quanto pude. No final ganhámos os dois: ele viu-se livre da cachorra de dois meses, que deixara cheia de carraças ao abandono, até ser atropelada; eu, que entretanto me afeiçoara, disse-lhe com um baque no coração, mas quer o cachorro porquê, se estava tão maltratado... não quer dá-lo, até eu ficava com ele, faz-me lembrar uma cadelita que eu tinha quando era pequena. Os meus cães têm liberdade e eu nem sempre estou, deu-me a desculpa esfarrapada. Ela até é muito esperta, mas agora parece-me estranha... E está, Sr. goats man, ficou com um lado semi-paralisado, com a pancada, mas a recuperar. Mesmo que a quisesse levar agora, eu não lha entregava. Ainda não está livre de perigo. O , é que é terrível: um campo de concentração de cabras e outros bichos, bem no centro da localidade. E olha-se para o homem e nem parece má pessoa.   

Cestrum-nocturnum












































al face bio lógica sem verde alface

enquanto a lavo e me desmaia nas mãos:

[de tanta ecologia
talvez sofra de anemia 
- o desfalecimento!]