Atalhos de Campo


30.4.17

pathway





































































propagação e resistência

há duas características notáveis que tenho encontrado 
em duas ervas, tidas como daninhas: a primeira tem a ver 
com a capacidade de a semente se agarrar, enredar mesmo, 
com o que passa por ela, para assim ser transportada e 
tentar a sua sorte mais longe; a segunda é ainda mais 
extraordinária: a planta, literalmente espezinhada, 
levanta-se imediatamente, perante o pasmo dos nossos olhos

29.4.17

re creio
























para baixo

Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.
(...)

António Gedeão/ Poema da flor proibida

para piano







































































fora de horas



ana vê alice 
como se nada visse
como se nada ali estivesse
como se ana não existisse

vendo ana 
alice descobre a análise
ana vale-se
da análise de alice
faz-se Ana Alice

 você me alice
eu todo me aliciasse
 asas
     todas se alassem
 sobre águas cor de alface
ali
   sim
      eu me aliviasse

a vida varia
o que valia menos
passa a valer mais
quando desvaria

Paulo Leminski

28.4.17

taxonomia autónoma

Escreve-se Bizâncio, lê-se Istambul, mas é Constantinopla; que é como quem diz: 
escreve-se Echium fastuosum, lê-se Massaroco, mas é o Orgulho da Madeira.

Como a rosa

Como a rosa tenho o rosto lavado
A coluna direita
As folhas como braços levantados
Mas os espinhos estão cravados
No meu corpo 

22.4.17

a beata

Descubro duas beatas junto ao degrau do meu pátio. Depois uma terceira. São beatas recentes, de ontem ou anteontem. Leio a marca escrita em itálico junto ao filtro, mas não a fixo. Sinto um ligeiro mal-estar com o facto de alguém aproveitar a minha ausência para fumar, sentado junto à entrada da minha casa, e ainda por cima sobre a floreira dos amores-perfeitos, que encontro bastante amachucados. Pergunto-me que desculpa dará se por qualquer motivo der de caras comigo, ou se andará a estudar-me os movimentos, e por cálculo de probabilidades souber, com pouca margem de erro, que a hipótese de isso acontecer é muito remota, acendendo calmamente outro cigarro. Ao apanhar as beatas do chão tenho a sensação estranha de que se trata de uma mulher. Há homens assim, descarados, mas andam mais ocupados. Será portanto uma mulher que se senta aqui quando eu não estou, a contemplar o meu jardim, enquanto fuma. Sinto-me até lisonjeada, mas só por breves instantes. Sim, porque nunca vi ninguém. Só as beatas acintosas provam que aqui esteve alguém. Pode ser a mulher que já vi por estes lados, a pedir. Mas, se for ela, usará o dinheiro para comprar cigarros. Afasto essa ideia da cabeça: a mulher é fumadora, mas contemplativa. Vem aqui porque gosta de ver o jardim, enquanto fuma. No entanto amanhã vou buscar uma beata daquelas e vou guardá-la com uma etiqueta. Nunca se sabe.        

três minutos de silêncio

21.4.17

ensaio

cairia muito bem dizer que ainda tenho os olhos cegos sobre ti,
mas não:
já abri os olhos sobre mim.

profissional

O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não
largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O
que faço aqui no campo declamando aos metros versos
longos e sentidos? Ah que estou sentida e portuguesa, e
agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou profissional.

Ana Cristina Cesar/A teus pés

cativeira

A doutora aqui é uma cativeira, disse-me certa tarde, pousando 
o ferro de engomar para enfrentar o meu ar cansado e triste, 
quando lhe comuniquei que me ia embora. Olhei-a com assombro. 
Aquela mulher, que sempre me parecera ignorante, acabava de 
resumir a uma frase toda a minha deplorável condição.   

20.4.17

olhai os lírios com fúria



Abril ainda não morreu
O sol ainda não doeu

sem parquímetro


































Garrano estacionado numa aldeia portuguesa
Algarve, Séc. XXI


measles

Aconteceu há muitos anos, no tempo em que os pais com vários filhos juntavam as crianças, mal uma delas adoecia, para que todos fossem tratados simultaneamente. Assim todos tivemos sarampo, varicela, e outras doenças. Quando algum de nós aparecia com febre, em vez de ser posto em isolamento, era precisamente estimulado a permanecer junto dos irmãos, para que houvesse sincronia na doença e abreviamento do período de tratamento. Felizmente nunca correu mal, isto é, ficámos sempre todos doentes, e foi assim que o meu irmão mais novo contraiu sarampo ainda no berço. Só bem mais tarde vim a saber que o vírus da esgana, doença infecto-contagiosa do cão, é da mesma família que o vírus do sarampo, e que no cão, uma vez contraída, a doença mata ninhadas inteiras. Sintomas ligeiros de rinite evoluem para pneumonia seguida de gastro-enterite. Por fim uma encefalite origina paralisias, convulsões, e morte ou sequelas graves nos poucos sobreviventes. Portanto, no cão, é urgente vacinar para reduzir drasticamente o desfecho quase sempre fatal da doença. Hoje em dia é raro aparecer um caso de esgana por causa da vacinação maciça dos cachorros, e do cuidado na sua revacinação. 

Foi precisamente num desses períodos de cura que certa vez que os meus pais foram ao cinema nos deixaram entregues a alguém que veio tomar conta de nós e levou companhia, uma mãe e uma filha, ou talvez uma tia e uma sobrinha. O certo é que, quem quer que fosse, ia munida de uns livrinhos de histórias para crianças que ia contando a pedido. Mas as histórias nada tinham de encantar, eram antes povoadas por criaturas que elas resolveram a certa altura encarnar, rugindo e apagando as luzes para nos caçarem às escuras, bruxas vivas e lobisomens, monstros à solta pelos quartos, gritos de pavor, sofrimentos e várias mortes, pedidos implorativos para acabarem com aquela, que contassem outra, mas a seguinte era ainda pior. Ficámos petrificados, cansados. O teatro acabou muito antes de os meus pais chegarem a casa. Tudo estava aparentemente normal e nós dormíamos, exaustos e olheirentos, quando eles apareceram. Mas ainda hoje me lembro do ambiente de terror que vivemos, e do que nunca mais foi igual.

19.4.17

uma história de fadas

Mulher-Cão * Paula Rego
1994



























Quando apareceu a Mulher-Cão foi um grande dia na minha vida, posso assegurá-lo.
Paula Rego

Paula Rego/John McEwen 

15.4.17

sepulcral silêncio

(...)
Cruz, rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro. Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega. Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trespassado de sede. Árvore
Que bebe do homem. Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva. Verbo
Tão inteiro que se fez espelho.

Daniel Faria/Zaqueu

as últimas sete palavras

enigmática

a rosa branca perfuma-se de amarelo

12.4.17

Amarante

É macio como um antigo tapete persa. Enfio a mão com dificuldade pela rede de malha larga que nos separa, enquanto ele espera e se encosta mais, o mais possível, ao ouvir que é bonito. Amarante é um cão grande, um pointer maravilhoso, que troca todos os dias de lugar com as galinhas, senão já não havia galinhas, nem galo. É solto de noite para guardar o quintal, enquanto elas recolhem e se aninham para dormir, empoleiradas no limoeiro. Amarante leva a sério essa nova função, esse posto de guarda-nocturno que lhe deram quando a caça para ele terminou, com a morte do dono. Quer justificar a sua habilitação como cão de trabalho, precisa de sentir que consegue ganhar honradamente a magra ração que come e que o deixa magro. Por isso aceita a tarefa com humildade, correndo em volta do terreno, atirando-se à rede com convicção, surgindo de surpresa do meio dos arbustos que escondem a estrada, empertigando-se e engrossando a voz. Mas às vezes uiva, infeliz, num longo lamento como um fado triste. Sinto-lhe as orelhas cada vez mais grossas de carraças, adivinho o perigo dos fins de tarde pegajosos de insectos, sei que Amarante desconhece esses perigos que vão matando aos poucos, porque agora ainda corre alegremente, esticando a cauda de vime para açoitar com veemência o mau presságio do lusco-fusco. Um dia os seus olhos esmorecerão, levantar-se-á com o sacrifício da febre, e o veterinário dirá que foi tarde demais. Olho para ele e nem sei se é Amarante, o cão que corria num jardim da minha infância, porque em todos os jardins abandonados vive um cão fiel.           

7.4.17

o remédio

Doctor, you are a dog savior!- disse, ao abandonar o consultório.
Nunca recebi um elogio tão exagerado por tão pouco, mas também nunca 
me senti tão feliz por ter, fora de horas, uma única embalagem do 
que alguém necessitava desesperadamente. 

6.4.17

amor pela correspondência

fantasio sobre aquele casal muito jovem que gere o pequeno posto dos correios da vila: ela, morena e sardenta, rosto comprido e sorriso branco a aparecer por entre o cabelo escuro e teimoso, escondida atrás de uma secretária-balcão no meio de invólucros manuscritos, manuseando carimbos, pacotes e encomendas, separando e despachando, controlando a enorme parede postal da entrada, feita em tijolo de segredos sobrepostos e bem fechados à chave; ele, que eu nunca vi, mas que pressinto quando pára à minha porta e se inclina para a caixa do correio, que segue num arranque rápido e estridente dobrado sobre a motorizada caminho fora por entre quintas e courelas, a derrapar nas estradas poeirentas de sol, ou de chuva e de vento protegendo o peito magro, ele que salta para abrir a mala postal, para distribuir, para decifrar e para entregar na mão certa que volta as costas e assina, ele já ansioso pelo regresso, exausto e vazio como uma carta de amor lida dezenas de vezes, quando finalmente volta em segurança ao longo e silencioso abraço do seu envelope 

4.4.17

dias de guerra

vi hoje a espantosa imagem de uma mulher velha e tisnada pelo sol,
de lenço na cabeça, saia comprida e avental, a transportar lentamente, 
estrada fora, uma bilha de gás num carro de bebé 

2.4.17

Anjo

Por esta hora, cedo para um Domingo, a minha irmã ainda não dormiu. Durante toda a noite vigiou a temperatura daquele filhoesculpido em barro com as próprias mãos. Eu chamo-lhe anjo. Embora não lhe encontre asas sei que ela fez um anjo, um anjo de terra, moldado para que os homens possam vê-la no lugar do coração, através dos braços postos, as mãos juntas colocadas sobre a ausência de corpo. E agora esse anjo, esse projecto arrojado de um filho, está deitado no forno, não um forno crematório mas um ventre de temperaturas altíssimas, como é o interior da terra. Uma gestação vigilante sem hipótese para distracções, a espera ansiosa pelo arrefecimento certo, que pode durar mais do que um dia para que o barro não abra fissuras - como a superfície do solo - durante a passagem para este mundo. E depois, depois a surpresa à abertura do forno já frio, que pode ser de assombro ou de sobressalto. O nascimento de um anjo assim, será sempre um triunfo da humanidade.