Atalhos de Campo


25.7.17

8%

É o tamanho da lua, hoje: para mim chega. Está linda no céu, não apaga nada, antes existe ali, como espada, uma foice quieta, que não quer cortar. E não sabendo qual a percentagem que me resta, também eu brilho como foi-se incerta, num caminho que é lunar.

desfocado

se focava o livro, desfocava o homem
se focava o homem, desfocava o livro

por fim preferi ler

cão a dormir


24.7.17

desafinado

Ele não toca bem e desafina quando canta.
Seria horrível ouvi-lo, se a maior parte das vezes 
o silêncio, as janelas fechadas, e a escuridão,
não fossem ainda piores.

sponging on e sponging off

Passo parte do Domingo a pintar o meu quarto. À cabeceira da cama uso uma esponja natural para deixar marcado o azul báltico. Contorno a janela e a prateleira em pedra. Continuo na parede contígua, seguindo uma voz que vem de dentro. Termina, como maré irregular, sobre branco. Ouço Async em repeat. Não se volta duas vezes ao mesmo amar. Adormeço numa ilha.

pequeno-almoço em áfrica

Levo o pequeno-almoço para o terraço que dá para o jardim. 
A cadelita anda por ali, vai recuperando mas ainda coxeia da mão esquerda. 
De manhã cedo recebe-me com saltos e latidos, quando entro na cozinha. 
Enquanto bebo o café afasta-se para explorar o espaço em volta. Procuro-a com o 
olhar. De súbito vejo uma ponta de cauda branca a aparecer por entre as ervas baixas, 
como se fosse a de um mabeco.  

22.7.17

the goats man

A nossa representação foi perfeita. Eu tentei não deixar transparecer ansiedade, ele foi directo ao assunto, venho buscar um cachorro que uns ingleses deixaram aqui, quanto devo. Suponho que ensaiou bem a fala, a atitude, a postura. Eu improvisei o quanto pude. No final ganhámos os dois: ele viu-se livre da cachorra de dois meses, que deixara cheia de carraças ao abandono, até ser atropelada; eu, que entretanto me afeiçoara, disse-lhe com um baque no coração, mas quer o cachorro porquê, se estava tão maltratado... não quer dá-lo, até eu ficava com ele, faz-me lembrar uma cadelita que eu tinha quando era pequena. Os meus cães têm liberdade e eu nem sempre estou, deu-me a desculpa esfarrapada. Ela até é muito esperta, mas agora parece-me estranha... E está, Sr. goats man, ficou com um lado semi-paralisado, com a pancada, mas a recuperar. Mesmo que a quisesse levar agora, eu não lha entregava. Ainda não está livre de perigo. O , é que é terrível: um campo de concentração de cabras e outros bichos, bem no centro da localidade. E olha-se para o homem e nem parece má pessoa.   

Cestrum-nocturnum












































al face bio lógica sem verde alface

enquanto a lavo e me desmaia nas mãos:

[de tanta ecologia
talvez sofra de anemia 
- o desfalecimento!]

Palavra

ESGOTADA

17.7.17

nocturno

noite serena
brilham aromas 
*em* estrelas

siameses



bestialidades

No auge do Verão a câmara manda cortar as árvores de sombra: lódãos, jacarandás, áceres, plátanos. Os troncos ficam no chão, durante vários dias, a libertar maciçamente pólenes que invadem tudo. A seguir recolhem os troncos e arrancam definitivamente as árvores. Um dia voltam e decepam as árvores-da-borracha centenárias, que sangram como elefantes feridos. Entretanto os jardins e canteiros públicos continuam ao abandono.

16.7.17

medieval

No meio da algazarra das ruas, exibem-se três aves raras
para sessão fotográfica: uma Arara-azul, um Bufo-real e uma 
Coruja-das-torres. O homem jamais conseguirá escapar ao 
seu instinto de Idade Média.

bordado

Acordo estremunhada e levanto a cabeça para encarar a janela à esquerda, entreaberta, de onde vem um ruído de carros a trepar pelas paredes. Onde estou, pergunto-me, abrindo os olhos com mais força para vencer o espanto, se a outra janela é atrás da cama? Olho para o estore japonês bordado à luz da rua e sigo o picotado em código repetitivo até ao fim, até ele estacionar no meu cérebro ainda meio desligado. Finalmente deixo-me cair para trás, confiante, sobre a almofada: já sei, estou no meu quarto antigo, deitada na minha cama. Mas já não volto a adormecer como dantes.   

inesperadamente














































15.7.17

in memoriam

A baixa e arenosa praia e o pinheiro anão,
a baía e a longa linha do horizonte.
Que longe estou de casa!
O sal e o odor de sal do ar do oceano
e as redondas pedras polidas pela maré.
Quando chegará o barco?
Os vestígios queimados, quebrados, carbonizados,
e a profunda marca deixada pela roda.
Por que é tão velho o mundo?
As ondas encapeladas e o céu imenso e cinza
sulcado pelas lentas gaivotas e pelos corvos.
Onde estão todos os mortos?
O delicado salgueiro dobrado sobre o lamaçal,
o grande casco apodrecido e os flutuantes troncos.
A vida traz pena!
E entre pinheiros escuros e pela margem lisa
o vento fustigando. O vento sempre o vento!
Que será de nós?

George Santayana / Cape Cod 

14.7.17

aferição

a minha aferição é com a morte

trânsito

A proibição do prazer é a chave que o estimula: a luz vermelha 
acende-se e com ela os meus desejos de atravessar a rua.

Fernando Savater / Teresa

veto

hoje vetei uns shorts mais curtos do que 
a camisa da farda 

você nessa figura não entrava no Vaticano,
- fica a saber.

festarola

e fugi o mais rápido possível da aldeia, da música pimba em altos berros, 
dos lugares sentados (de primeira), do cheiro a sardinha, das marchas, 
da modinha; e fugi de ti, artigo indefinido, principalmente para mim.

a décima sexta emenda

está declarada a época alta

Imperial

- Havia de experimentar ir lá ao fim da tarde; 
  a cerveja é servida em copos de cristal!

E como explicar-lhe que o que me atrai é precisamente
a esplanada do café estafado e sujo onde ecoam gargalhadas 
boçais, onde me servem uma imperial em copo vulgar 
e baço num canto qualquer; que não se trata de celebração
mas de um lamento, de uma moínha mansa que se contenta com
um resto de espuma.  

13.7.17

compromisso

a tatuagem como modo de libertar a alma
ou antes de a aprisionar

contei as minhas cicatrizes
tenho mais do que julgava
e várias picadas de mosquito
e é tudo.

daiquiri




12.7.17

geringonça

Hoje castrei o Gerigonça. Seria um acto eleitoral se fosse a Geringonça, mas não. Esquecendo o risco desta anestesia geral, foi menos leal castrar o Geringonça do que seria oportuno castrar a Geringonça, mesmo que ela não estivesse ainda preparada. Suponho que também consegui a proeza de transformar o em o, com o auxílio de alguma técnica, o que para o caso poderia ter interesse. O Geringonça, como já se percebeu, é o meu novo gato. Um dia encontrei-o na minha cama, quando me ia deitar. Apanhei um valente susto ao distinguir uma sombra escura sobre os lençóis. Corri com ele, que desapareceu a derrapar pelos telhados. Mas ele insistiu e voltou umas noites a seguir, daí o nome, e eu voltei a correr com ele. Porém apercebi-me de que estava doente, pois deixara uma marca de sangue no sítio onde estivera deitado. De dia procurei-o, entre os muitos que por aqui andam, e encontrei finalmente um gato magro e desarticulado no andar, com um abcesso numa pata, que supus ser o acertado. Levou várias injecções até ficar curado, o que seria muito útil também na Geringonça,  mas para isso era preciso que ela se tivesse deitado na minha cama, coisa que felizmente não aconteceu.

de as atropelar

De manhã, e à noite no regresso, as andorinhas fazem uma festa em volta do carro. Suponho que é o ar em movimento que levanta insectos e as atrai. Então é como se eu fosse a voar com elas, e travasse com elas sobre o asfalto. Esqueço-me que vou no chão. Saio mais cedo, e chego mais tarde, para poder ir mais devagar e não correr o risco de as atropelar.

11.7.17

attraper

A mensagem é curta, mas sugestiva. É na verdade um agradecimento, 
acompanhado por uma pequena nota: entretanto conseguimos arranjar 
uma gatinha adorável, pequena mas dotada, já apanhou um pássaro! 
O pássaro era uma andorinha - hirondelle.   

pisa papéis



Era uma folha pousada
no cotovelo do vento:
e pairava, deslumbrada,
entre morte e movimento.

Era uma folha: lembrava,
de tão frágil, o momento
em que a vida me ficava
escrava do teu juramento.

Era uma folha: mais nada.
Antes fosse esquecimento!

David Mourão-Ferreira / Folha 

silly season

- Agora tenho atrás de mim um casado e um louco! - diz-me ao telefone.
- Escolhe o louco; escolhe o louco - aconselho.

10.7.17

barrocal

Sentada ao seu lado no automóvel, ia sentindo uma vez mais que médicos e veterinários têm muito pouco em comum. A conversa era sobre as hepatites, A, B, C, (porque também no cão há hepatites virais), e a vacina que eu levava comigo na mala isotérmica tinha precisamente uma dessas valências. Aquilo que estudamos é idêntico, actuamos sobre corpos doentes, mas para todos os efeitos um médico é prioritário porque o homem é prioritário. Assim sendo um cão é secundário e o veterinário passa a ser um médico secundário; e quando um médico e um veterinário se juntam no mesmo habitáculo esse complexo parece acentuar-se. Médica reformada antes do tempo, mas dona do seu tempo, como referiu. E depois havia feito uma reflexão e chegado à conclusão de que um médico é sempre um médico. Concordei. Mesmo que a medicina vá progredindo e os tratamentos se actualizem, as doenças, na sua maioria, continuarão a ser as mesmas de sempre. E há a experiência, dizia-lhe eu, a experiência deveria ser considerada património da humanidade. Sim, eles quando nos propuseram a reforma antecipada não se lembraram disso. Chegámos a um portão fechado sobre um jardim, que um muro caiado separava das cigarras, do calor e da secura. Comentei o contraste, a orquestra das cigarras à hora de mais calor, o mar ao longe, uma paisagem de Sophia. Um barrocal, rematou. Pedras e barro, acrescentei, tenho conquistado o meu jardim às pedras e ao barro. A quinta tinha o nome de uma doença, mas o cão estava saudável. Era enorme e meigo como o mar, visto assim, de longe.        

de olhos fechados

e só procuro























II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia

castigo

é preciso que te repita vezes sem conta
para que te esqueça de uma vez 

9.7.17

desmoronamento

e foi assim
descalça e nua
que me tomaste
e que de mais ninguém
fui tua

Bau n'ilha



I
De todos os cantos do mundo
Amo com amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia

8.7.17

o homem que só lia blogues extintos

Era um homem pacato, nem gordo nem magro, de estatura média, um homem comum de meia-idade. Morava sozinho e era discreto, cumprimentava os vizinhos com parcimónia, evitando qualquer tipo de diálogo quando se cruzava com eles na rua, ou na escada do prédio antigo onde morava. Viam-lhe por vezes um saco de compras, geralmente à sexta-feira, e sempre uma mala negra a tiracolo que ele transportava com cuidado, escudando-a com a mão. Chegava tarde do trabalho e mal entrava em casa dirigia-se à cozinha para abrir uma lata de comida para o gato tigrado que  não o largava, saltando para a bancada com miados de súplica. Depois do jantar, - invariavelmente comia a ouvir ópera - colocava o tabuleiro no chão, ao lado do sofá que partilhava com o gato, para retirar do interior da mala um portátil pequeno que colocava sobre os joelhos. E fazia sempre a mesma coisa, dedicava-se a usar o motor de busca para encontrar blogues conhecidos. Ia ao fim das listas de leitura recomendadas e continuava, noite após noite, um já longo trabalho de pesquisa: a procura de blogues extintos. Geralmente eram bons blogues, com vários anos, bem escritos, com leitores fieis, mas que inesperadamente tinham terminado. Então fazia-se seguidor, um seguidor póstumo, colocando a fotografia de perfil do seu gato Bashô no início da grelha, ali bem em evidência. Era um pouco mórbido, concordava, rindo-se sozinho, mas ele não entendia aquela avidez da leitura imediata e do esquecimento quase imediato. Por isso voltava todas as noites para ler tranquilamente aqueles blogues tristes como diários cansados, à procura do entusiasmo dos seus primeiros dias.  

7.7.17

publicação

um livro quando acaba não é triste
um blogue quando acaba é sempre triste

de gustação

reparto palavras contigo
corto-as em pequenos sons gourmet
ao serão

assi natura


deso brigação

amor
a quanto 
me desobrigas
quando a tua rima é 
sem mim 


que viva bem
porém 
sem um único
amen doim*

(à conversa com Carlos Drummond de Andrade)

6.7.17

duas razões

Duas razões de extrema importância me levam àquele café junto à estrada: o lixo e as contas para pagar no multibanco. A primeira arrasta-me para lá de manhã, a segunda ao fim do dia. Aproveito então para me organizar como segue: se levo o lixo, tomo um café antes da reciclagem; se vou pagar contas, bebo uma imperial depois. A Patrícia é muito simpática e enche-me um pires com amendoins para acompanhar. Quando aparece na esplanada invariavelmente estou a dedilhar dígitos na caixa multibanco, e ela olha para o lado para me perguntar onde coloca a cerveja. Indico-lhe a mesa, protestando: - Quando aqui venho à tarde fico sempre mais pobre! - e ela ri-se. Depois sento-me a descascar os amendoins e a beber a imperial devagar, devagar. Devagar. Mas aquilo que me leva a escrever hoje, contra a minha vontade de escrever, é uma coisa extraordinária que presenciei um dia destes de manhã, ou seja, quando vou reciclar o lixo. Na mesa ao lado estavam dois homens concentrados na partilha de tranquilas banalidades matutinas, enquanto eu bebia o meu café e observava uma mulher gorda sentada a uma mesa relativamente perto. De blusa opada pelas muitas carnes de lhe sobravam por todo o lado, qual quadro de Botero, a mulher acolhia a ternura de uma criança, que ora a afagava ora a beijava, e os seus braços abriam-se delicadamente para a abrigar no colo imenso, macio e flácido, pleno de maternidades. Nisto um dos homens, inesperadamente, disse: A ternura é uma coisa maravilhosa, não é? E a pergunta ficou assim, suspensa no ar, arrebatadora, até que o outro concordou. Eu também, em silêncio. Nós os três enfim, magros de festas.

tal como nos blogues

(...)
Todos temos questões por resolver, mas acho que os criadores têm ainda mais. Têm um grito gigantesco. O Kundera, em "O Livro dos Amores Rizíveis", dizia isso mesmo: há pessoas que precisam de ser amadas por um único outro significante, há pessoas que precisam de ser amadas por um núcleo mais abrangente, que hoje em dia talvez corresponda aos amigos do Facebook, mas antes eram talvez as pessoas que organizavam festas, em que ainda há necessidade de saber quem são, conhecer-lhes o rosto. Isso dá umas cerca de 200 ou 300 pessoas. Depois, há os artistas que têm um buraco tão grande que precisam de ser amados pelo mundo inteiro e, portanto, precisam de um público anónimo. Quantos mais melhor. Isto traduz um estado de desequilíbrio, obviamente. Acho que todos temos um estado de desequilíbrio, todos temos falta de amor. (...) Todos gostamos de ser reconhecidos pelo nosso trabalho, e isso é amor.
(...) 

Rui Horta em entrevista à E. 

5.7.17

choco crispi es

se te choco agrado te
se te agrado choco te

disrupção

há um gato que dorme na minha cama
que dorme sem gato

gosto de não escrever

escrever é uma profunda limitação
gosto de pensar
escrevo porque quero
mas prefiro silenciar as palavras
nenhuma palavra consegue chegar
ao que sinto, mesmo com muita técnica
pensaria sempre numa palavra diferente
um sinónimo, talvez, para te agradar
o que penso é vasto
mas se escrevo vasto
limito a vastidão

Passagem para a noite (35)


4.7.17

Passagem para a noite (34)




Voici venir les temps où vibrant sur sa tige
Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir;
Valse mélancolique et langoureux vertige!

Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige;
Valse mélancolique et langoureux vertige!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.

Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige,
Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir!
Le ciel est triste et beau comme un grand réposoir;
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige.

Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,
Du passé lumineux recueille tout vestige!
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige...
Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir!

Baudelaire/Harmonie du soir
Debussy/Prelúdio nº 4: 
Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir

3.7.17

sakura

Era um sábado tranquilo. Sentada à secretária lia a revista do meu semanário preferido, quando entrou uma mulher alta e muito jovem com uma caixa de sapatos na mão. A tampa estava perfurada com vários orifícios toscos e a rapariga sentou-se à minha frente, colocando a  embalagem com cuidado no colo. - Tem aí um passarinho... - Sim, caiu do ninho, parece-me que tem uma pata partida. - Vamos vê-lo, então. Levantei-me e dirigi-me para a sala das consultas. Ela seguiu-me e colocou a caixa sobre a marquesa. Fui levantando a tampa com cautela, preparada para um voo com direcção incerta. Aninhado no fundo, apoiado sobre os metatarsos, estava um pequeno pardal com o corpo ainda mal coberto de penas, evidenciando extrema debilidade. Peguei-lhe para verificar se tinha alguma fractura, mas não. Essa era a parte boa. - Ele já come, - afirmou, enquanto eu o devolvia à caixa - demos-lhe umas sementes de sésamo esta noite, que era o que havia lá em casa... - E de manhã estava tudo espalhado. - concluí. - Sim... - Mas isso não quer dizer que tenha comido. Com esta idade ainda não comem sozinhos. É preciso dar-lhes a comer uma papa própria, com uma seringa directamente no bico, mimetizando os pais, de duas em duas horas. - De duas em duas horas?!! - Sim, excepto de noite. Se quer tentar salvá-lo tem que ser assim, não há outra forma. Mas vai valer a pena! - disse-lhe a sorrir. Também lhe ensinei a fazer um ninho, com uma meia velha forrada por dentro com papel absorvente, trocado com frequência, para que não se sujasse com as próprias fezes. Ofereci-lhe uma seringa e o meu telefone, para qualquer dúvida. Tinham entretanto passado quinze dias e foram algumas as vezes que pensei que o pardalito talvez não tivesse conseguido sobreviver. Mas este sábado ele fez-me desviar novamente a atenção do jornal, desta vez com um sorriso de contentamento. A caixa de sapatos tinha sido substituída por uma pequena gaiola, que ao atravessar a porta deixou um rasto de sol. O pardal agitava-se durante a nossa conversa, saltitando no fundo, enquanto a dona recebia mais alguns conselhos para o futuro, até o conseguir libertar em segurança. - Já tem nome? - Hope, chamamos-lhe hope. - Fica-lhe bem esse nome, e ainda melhor porque parece-me ser uma fêmea. Estava salvo, e ela tinha vindo, assim, agradecer, com a simplicidade de uma haste de cerejeira em flor.  

1.7.17

malmequer

l'épicurien

- Je suis un épicurien! - dizia-me à saída, baixando os óculos para me ver melhor, 
suponho, exibindo os olhos azuis acentuados por sobrancelhas fartas e brancas, 
retorcidas como chapas ondulantes ao sol.
- Carpe diem. - respondi ao abrir a porta, olhando para o chão.

a profissional e o ama dor

eu interesso-me como se tu fosses uma doença
tu interessas-te como se eu fosse uma profissional

ao momento

Enquanto espremia laranjas pequenas, rodando e pressionando até deixar as meias luas vazias de polpa e acumular oito metades, o que enche um copo alto de sumo, lembrei-me do homem, a quem passei a chamar - o sindicalista - (suponho que devido à grande quantidade de heterónimos com que lido diariamente), durante o processo ávido de depenar a laranjeira para o interior de um grande saco. Nessa altura pensei que aquelas, contrariamente a outras, deveriam ser boas, senão nenhum sindicato lhes pegava. E fui experimentar, e eram boas, portanto passei a acreditar no sindicato dos laranjistas. Foi aí que resolvi comprar um espremedor manual (porque sempre exercito os músculos do antebraço), e metálico, porque não gosto definitivamente de plásticos. E se as conversas fossem como as laranjas que sobraram na árvore, que embora pequenas são bem maiores do que as cerejas, diria que também pensei, durante o acto de espremer, no Salvador Sobral pai, que é o único que eu conheço, e naquele concerto memorável do Bau a que fomos assistir na Aula Magna, e de como nós três, amantes de toda a música, vibrámos com Raquel, lembrando-nos mais tarde que Pina Bausch a coreografara para Almodóvar. E já a beber o sumo sentada ao sol, recordei-me da dedicatória em Os Miseráveis, que entretanto desaparecera com o teu rosto.