Atalhos de Campo


1.7.17

ao momento

Enquanto espremia laranjas pequenas, rodando e pressionando até deixar as meias luas vazias de polpa e acumular oito metades, o que enche um copo alto de sumo, lembrei-me do homem, a quem passei a chamar - o sindicalista - (suponho que devido à grande quantidade de heterónimos com que lido diariamente), durante o processo ávido de depenar a laranjeira para o interior de um grande saco. Nessa altura pensei que aquelas, contrariamente a outras, deveriam ser boas, senão nenhum sindicato lhes pegava. E fui experimentar, e eram boas, portanto passei a acreditar no sindicato dos laranjistas. Foi aí que resolvi comprar um espremedor manual (porque sempre exercito os músculos do antebraço), e metálico, porque não gosto definitivamente de plásticos. E se as conversas fossem como as laranjas que sobraram na árvore, que embora pequenas são bem maiores do que as cerejas, diria que também pensei, durante o acto de espremer, no Salvador Sobral pai, que é o único que eu conheço, e naquele concerto memorável do Bau a que fomos assistir na Aula Magna, e de como nós três, amantes de toda a música, vibrámos com Raquel, lembrando-nos mais tarde que Pina Bausch a coreografara para Almodóvar. E já a beber o sumo sentada ao sol, recordei-me da dedicatória em Os Miseráveis, que entretanto desaparecera com o teu rosto.