Atalhos de Campo


2.8.17

Agosto

Vou atrasar-te o mais possível
fazer toda a fraude que puder com as minhas horas
gaguejar os teus minutos
fechar os olhos aos novos segundos
soletrar dias pendentes 
mergulhar devagar no sol das tuas noites quase frias.
Vou desfocar o registo da tua lua toda
e perder tempo, muito tempo 
a vê-la afastar-se por entre os ramos da figueira alta,
apanhar-lhe os últimos figos 
e ficar a comê-los no luar quente e maduro.
E quando o vento já não fizer estremecer nenhuma folha insegura
deixarei presas à chuva
todas as rosas brancas que cultivei para ti, 
emersas no silêncio sem leds do céu inteiro.
E quando a lua minguar e as flores empalidecerem
e as Monarcas tiverem migrado para o México
à procura de outras zínias mais coloridas e mais novas,
eu já te terei atrasado tanto
que um pequeno cristal em tua vez
ficará como o único Verão,
que valeu em mim
a tua pena.