Atalhos de Campo


5.8.17

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Apaixona-me, por isso, a história de Vivian Maier(1926-2009). O seu primeiro trabalho é, em Nova Iorque, ao balcão de uma loja de doces. Transfere-se depois para Chicago, e passa a ser ama na casa de uma família de North Side. Nunca se casou. Aprendeu inglês indo ao cinema e ao teatro. Andava sozinha. No dia de folga pegava na sua Rolleiflex de médio formato e ia fotografar. Calcula-se que tenha feito perto de cem mil fotografias, num preto e branco rigoroso, que não mostrou nunca a ninguém. Fotografou a rua: os moradores dos bairros, as crianças brincando, os bêbados, as senhoras coquetes, os homens das mudanças, as marchas, as manifestações, os pequenos enredos de esquina, os chanfrados, o alarde das montras ou a confidência sempre diferente que um olhar, ao mesmo tempo reserva para si e escancara. No mês anual de folga, acontecia fazer uma viagem, mantendo a mesma preocupação de registar fotograficamente a rua. Quando morreu, os seus anónimos pertences foram vendidos em leilão, sem que se fizesse ideia de que se estava a entregar, por um escasso punhado de dólares, a preciosa obra de uma das grandes criadoras do século XX.

José Tolentino Mendonça/O Verbo Fotografar
Revista E, 5/Agosto/2017  



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